Economia

“A resposta a esta crise tem de ser ousada, corajosa e articulada”

Para o presidente da Confederação Empresarial de Portugal, esta é a altura para o país pensar na reindustrialização com os fundos que vai receber da Europa. O ‘patrão dos patrões’ aplaude a ideia de António Costa Silva fazer o programa de relançamento da economia e critica a ideia do jogo político estar a olhar para as eleições e não para as gerações. E lamenta que muitos fiquem de fora nestas questões por não pertencerem a partidos políticos.

Como vê as previsões para a economia portuguesa com a taxa de desemprego e a dívida pública a subir e um défice de 6,3% este ano?

Vejo com alguma preocupação, principalmente depois de termos feito o combate que travámos para ultrapassar a crise anterior. Agora surgiu esta crise inesperada e temos de recomeçar tudo outra vez. O que tenho defendido é que é preciso fazer tudo em sede de concertação social em que o Governo, instituições sociais quer empresariais quer sindicais façam tudo o que estiver ao alcance para recuperar, mas num jogo de seleção. Não estamos em tempo de jogo de equipas, em que cada uma puxa para si o melhor resultado. Temos de salvar o mais possível as empresas para que se possa salvar o mais possível os postos de trabalho, tentando que a crise não atinja os piores indicadores. É certo que algum desemprego vai acontecer, mas esperamos que não atinja os piores cenários. E nós, empresários, temos de fazer tudo para salvar postos de trabalho. O Governo tem, da mesma maneira, e acho que o fez, de responder com eficácia, embora por vezes tardiamente neste e naquele aspeto. Respondeu com eficácia à pandemia e à saúde pública, mas já na questão da economia atrasou-se em algumas matérias, nomeadamente ao não ter lançado mais cedo e com maiores montantes as linhas de apoio, sendo que, algumas delas, deveriam ter sido lançadas logo no início a fundo perdido porque as empresas, a micro realidade empresarial que nos caracteriza, não pode estar a juntar dívida à dívida que já tem. Da mesma maneira que, em termos de layoff, apesar da medida ser virtuosa, acabou por demonstrar algum atraso que registou alguma ineficácia e inoperacionalidade da máquina pública, apesar do enorme esforço que reconhecemos que depois foi feito, quer na Segurança Social quer noutros serviços para responder aos inúmeros processos que já eram previsíveis que fossem entrar. Temos de reconhecer esse esforço, não podemos ser mal-agradecidos. Mas, de facto, a máquina pública não estava preparada para a enchente de candidaturas que entraram, o que acabou por criar alguma confusão e alguma penalização nesse objetivo que referi, que era salvar o maior número possível de postos de trabalho. Por isso, sintetizando, vejo com preocupação mas, da mesma maneira que conseguimos ultrapassar a crise anterior, também vamos ultrapassar esta com algumas dificuldades mas com realismo.

Mas esta tem outras dimensões...

Esta é completamente nova, diferente. Nada se compara com a anterior e, por isso, a resposta tem de ser ousada, corajosa e articulada. O Governo, agora com este PEES [Programa de Estabilização Económica e Social], veio ao encontro de um conjunto de medidas que a CIP tem vindo a sugerir. Vimos isso com agrado porque é sinal de que o Governo nos escutou, quer no alargamento dos montantes das linhas de financiamento, quer na capitalização das empresas. Já o layoff simplificado, na nossa opinião, dever-se-ia ter mantido até o final do ano, até porque não atingiu os números de apoio que o Governo receava e que rondava os mil milhões de euros por mês. Felizmente ficou-se longe desse número, mas receio que a alteração que foi feita, atendendo que a retoma está a ser lenta, assimétrica, a confiança ainda está muito longe de atingir os números que se desejariam porque ainda não há uma resposta médica à pandemia. Acho que o consumo vai ser retomado lentamente. Isso vai fazer com que algumas tipologias empresariais precisem de ser salvaguardadas porque da mesma maneira que o Estado - e bem - protege camadas sociais mais desfavorecidas, tem de proteger igualmente as camadas empresariais mais fragilizadas. Não podemos estar a atirar dinheiro para os problemas, porque muitas empresas vão desaparecer uma vez que os seus modelos de negócio já estavam debilitados e as suas estruturas de capitais já eram muito débeis. Não nos esqueçamos de que é esta a micro realidade de empresas até 10 trabalhadores que constituem a grande base empresarial de Portugal e, por isso, o Governo, nas suas tipologias de ajuda – como alguns municípios têm estado a fazer – deve tentar ajudar, manter nos cuidados intensivos e em ventilador, passo a caricatura, as empresas mais desfavorecidas e mais afetadas pela crise. Principalmente as que viviam muito do turismo, como a restauração e outras. Essas estão, agora, mais debilitadas. Foram apanhadas de forma mais violenta pela crise. O Estado, da mesma maneira que tem de proteger camadas sociais mais desfavorecidas, deveria encontrar formas de proteger estas realidades que, não é por erros de gestão, não é por maus modelos de negócio, é porque de facto a confiança ainda não é a que era e tarda a retomar. Depois, de acordo com a avaliação que se fizesse no final do ano, logo se veria se tinham mesmo de morrer ou se conseguiriam sobreviver.

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