Opinião

Os extremos tocam-se no ataque à liberdade

Em Portugal, os extremos ganharam força à medida que o sistema, em especial os dois grandes partidos do sistema, com o PS à cabeça, não resolveram os problemas que prometeram resolver.

O turbilhão da crise e a espuma dos dias têm escondido o facto de que Portugal e, na verdade, boa parte do mundo, chegou a uma bifurcação no seu percurso democrático. Temos perante nós uma escolha entre dois caminhos. De um lado, o caminho da Liberdade, do outro o caminho do Extremismo, aquilo a que Hayek chamou o caminho da Servidão. É, por isso, mais importante do que nunca defender o caminho da Liberdade e barrar o caminho aos Extremismos de cariz populista. 

Os Extremismos populistas, quer os de direita quer os de esquerda, têm muito em comum. Ambos desvalorizam a Liberdade, a sociedade aberta e a democracia liberal. Ambos estão unidos na apologia do coletivismo, de mais poder para o Estado e menos poder para as pessoas. Ambos têm visões messiânicas de uma pessoa ou de um grupo de iluminados com receitas simplistas. Ambos se opõem ao comércio livre, à concorrência e ao mercado.

São parecidos no seu ódio à Liberdade individual e nos seus ataques às instituições democráticas, uns em nome da justiça social e outros em nome da segurança económica. Uns por preconceito étnico e outros por preconceito de classe.

São tão parecidos que não espanta que haja eleitorado que se transfira diretamente de um extremo para o outro.

Mas para quem ama a liberdade, e sobretudo para os liberais, é essencial continuar a condenar estas manobras e a defender a Liberdade sempre que os extremismos a atacam. 

A Liberdade é atacada quando um partido extremista de esquerda defende o regime comunista chinês que viola direitos humanos, que aprisiona uma minoria muçulmana em campos de concentração e que viola descaradamente a autonomia de Hong Kong. É atacada quando um partido extremista de direita quer limitar a liberdade de expressão e quer censurar uma rede social, numa imitação ridícula das posições do Presidente americano quando faz tábua rasa da tradição liberal do partido republicano. Quando um outro partido extremista de esquerda fecha os olhos aos excessos do regime venezuelano ou, recentemente, exulta com a violência e as pilhagens nos Estados Unidos. Ou quando outro partido de direita não consegue condenar os atropelos democráticos na Hungria e, crescentemente, na Polónia.

Os regimes que estes extremistas defendem são herdeiros dos que perseguiram, prenderam e mataram milhões de pessoas, condenando outros tantos milhões a morrer à fome. Isto não merece qualquer assomo de romantismo, merece condenação sem reservas e sem branqueamento histórico.

Não há ditaduras ‘fofinhas’ que mataram ou torturaram um bocadinho menos do que outras. Todas devem ser condenadas porque assentam na mesma ideia de subjugação do indivíduo e da sua liberdade aos ditames de um coletivo sem rosto.

Relativizar regimes autoritários, por uma qualquer afinidade ou por cálculo eleitoral, é convidar o mesmo relativismo do lado contrário, e é nesse caldo que o populismo floresce. 

O caminho da Liberdade pelo qual devemos optar deve ser claro para todos os que defendem a democracia liberal e para os que rejeitam frontalmente o fascismo e o racismo, bem como os excessos do antifascismo e o antirracismo chic de pacotilha, assim como para todos os que defendem a economia de mercado que, com todas as suas imperfeições, tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza e trouxe mais prosperidade e paz nos últimos 70 anos.

Em Portugal, quem mais se mostra incrédulo com a emergência do populismo é quem tem mais responsabilidade na matéria. 

O PS, por exemplo, que se diz surpreendido com o populismo é o mesmo PS que deu o braço à extrema esquerda e normalizou o populismo à esquerda. É o mesmo PS que tenta muitas vezes menorizar as atrocidades do comunismo em vez de defender as liberdades, como já correu nesta legislatura. Não todos, pelo que não posso esquecer aqueles poucos que, no PS, lutam contra esta maré que renega a história do partido. Para eles, o meu reconhecimento pela verticalidade e pela coragem. 

Em Portugal, os extremos ganharam força à medida que o sistema, em especial os dois grandes partidos do sistema, com o PS à cabeça, não resolveram os problemas que prometeram resolver. São os mesmos que usaram milhares de milhões de euros dos contribuintes para salvar negócios ruinosos, públicos e privados; que instituíram uma cultura de dependência do Estado em vez de uma cultura de mérito; que acumularam uma dívida pública gigantesca que hipoteca o futuro dos mais jovens; que mantêm intactos os privilégios para os partidos políticos, votando contra a nossa proposta de eliminar esses privilégios; e viram-se envolvidos em casos de conflitos de interesse, ajudando a criar uma cultura de compadrio e corrupção. 

A Iniciativa Liberal não compactua com este sistema. Não compactua com a estagnação de Portugal há mais de 20 anos, ultrapassado por vários países que se podem comparar connosco. Por isso, fomos o primeiro partido a apresentar um programa de retoma económica. Não compactua com o compadrio e a corrupção. Por isso, insistimos numa Comissão Eventual de combate à corrupção enquanto o Governo criava no ano passado com grande fanfarra um grupo de trabalho do qual nada se sabe e, a julgar pelo último relatório do GRECO, nada fez. Não compactua com conflitos de interesse envolvendo governantes ou com nomeações como a de Mário Centeno para o Banco de Portugal. Por isso, apresentámos uma proposta para que a escolha do governador seja feita por concurso internacional, tal como acontece noutros países. 

Nesta bifurcação de que falava ao início, em que somos chamados a escolher entre os caminhos da Liberdade ou da Servidão, da Democracia ou do Extremismo, a Iniciativa Liberal sabe bem de que lado está. Estamos, e estaremos sempre, do lado da Liberdade e da Democracia, do lado dos que acreditam num Portugal mais livre e daqueles que não desistem de lutar por ele.

João Cotrim Figueiredo
Presidente Iniciativa Liberal