De mala pronta

Já cheira a Verão!

Vamos remar contra o ‘vá para fora cá dentro’. É que se todos os europeus o fizerem, Portugal pode perder o pé...

por Filipa Moreira da Cruz

Boas notícias para todos os que sonham com as tão desejadas férias grandes! Reabertura das fronteiras terrestres e aéreas, praias com socorrista, semáforos, zonas delimitadas e bandeira azul. Esplanadas prontas para receber turistas ávidos de cerveja, tremoços, caracóis, sardinhas e bolas de Berlim. Filas intermináveis nas estradas que serpenteiam o país e gasolina a preços proibitivos. Áreas de serviço limpas e bonitas com sombras que valem ouro na hora do descanso. Sol, mar e areia a perder de vista. Aldeias pitorescas, vilas com encanto e cidades únicas. Povo poliglota, simpático e hospitaleiro. Tudo isto e muito mais no país lusitano!

O turismo contribui generosamente para o PIB nacional e é uma fonte direta e indireta de emprego. Portugal está à altura da sua reputação e tem vindo a demonstrar ser capaz de fazer-nos esquecer alguns erros graves do passado. Os abomináveis edifícios em betão que se amontoam ao largo da costa estão a ser, progressivamente, substituídos por ofertas sustentáveis e ecológicas que respeitam a paisagem. Finalmente! O turismo desorganizado e massificado está em vias de extinção e as autarquias empenham-se em dar resposta às novas exigências do turista informado e preocupado com o meio ambiente. Ainda assim, há muito por fazer. A proliferação dos alojamentos locais, essa praga tão nefasta como os percevejos, é um bom exemplo do politicamente aceite, mas extremamente incorreto. Que o digam os habitantes dos centros de Lisboa, Porto, Barcelona, Paris ou Veneza.

 

O nosso país tem muitos trunfos, mas não está sozinho nesta maratona. O turismo mundial esteve adormecido durante vários meses e vai querer recuperar o tempo perdido. Dos adversários diretos destacam-se a Espanha, a Itália, a França e a Grécia. Os países do sul da Europa são, muitas vezes, apontados do dedo pelos bem comportados habitantes do centro e do norte do velho continente. Chamam-nos preguiçosos, lentos, vigaristas, corruptos. Não faltam adjetivos para manifestar a aversão à mentalidade dos que vivem onde está sempre calor. Mas férias dignas desse nome só mesmo em Andaluzia, Baleares, Algarve, Sardenha, Creta, Madeira, Canárias, Santorini, Côte d’Azur, Corfu... E quem o diz são os mesmos que não nos poupam críticas. A escolha é vasta e a rivalidade ainda maior.

 

O país vizinho é, sem dúvida, o peso pesado da lista. De acordo com as estatísticas da OMT (Organização Mundial de Turismo) França continua a ser a nação mais visitada do mundo. No entanto, a Espanha, que ocupa o segundo lugar, é campeã na relação qualidade-preço e na diversidade da oferta. Passar férias em terras de nuestros hermanos é do agrado de quase todos, eu incluída! Alemães, britânicos, nórdicos, franceses e norte-americanos vivem ao ritmo ibérico. Não faltam os almoços às três da tarde nem as sagradas sestas.

Para fazer face à crise que nos acompanhará durante algum tempo os dirigentes concentram-se na retoma económica e o turismo é uma arma poderosa. E que melhor política que incentivar a população a passar férias no próprio país?

Não encaixo nos padrões da emigrante típica. Mudo frequentemente de cidade (até mesmo de país) e raramente vou a Portugal nos meses mais quentes. Os meus filhos viajam sozinhos há vários anos e não dispensam o Verão português. Vamos remar contra o ‘vá para fora cá dentro’. É que se todos os europeus o fizerem, Portugal pode perder o pé. Somos bons, mas poucos. Este julho, não passamos férias no país onde vivemos, mas sim naquele que me viu nascer.