Internacional

França. O brutal ciclo de vingança que abala Dijon

A rivalidade entre chechenos e outras comunidades imigrantes tem raízes profundas. Os confrontos arriscam beneficiar a extrema-direita.

 

Helicópteros a sobrevoar a cidade, dezenas de carrinhas cheias de polícia de choque, tiroteios, veículos incendiados, centenas de pessoas encapuçadas nas ruas, armadas com barras de ferro, facas e machados. O cenário em Dijon, uma pequena cidade no leste de França com menos de 160 mil habitantes, não é de guerra, mas sim de rescaldo de uma série de vinganças entre a comunidade chechena e os residentes de Gresilles, um bairro pobre com uma população maioritariamente oriunda do norte de África. Entretanto, a extrema-direita aproveitou para capitalizar com o assunto. Marine Le Pen, líder do Reagrupamento Nacional (antiga Frente Nacional), dirigiu-se para uma conferência de imprensa em Dijon, ontem à tarde, onde declarou: “Já não sabemos se estamos no Faroeste ou em Bagdade”. Já o presidente da Câmara de Dijon, François Rebsamen, pediu mais recursos, mas deixou bem claro à BFMTV: “Marine Le Pen não é bem-vinda”. 

O ciclo de vingança parece ter surgido a 10 de junho, quando um checheno de 16 anos terá sido violentamente atacado por alegados traficantes de droga de Gresilles. Real ou não, o episódio, que está a ser investigado como tentativa de homicídio, espoletou uma fúria que atravessou fronteiras, através de convocatórias nas redes sociais.

“Havia uma centena de nós, vindos de toda a França, mas também da Bélgica e da Alemanha”, contou um homem ao jornal local Le Bien Public, identificando-se como checheno, mas mantendo-se anónimo. “Nunca pretendemos saquear a cidade ou vingarmo-nos nas pessoas”. Contudo, foi isso que aconteceu, em sucessivas surtidas que envolveram mais de 140 indivíduos, vindos a Dijon para se vingar, segundo as autoridades.

No sábado, umas 50 pessoas, identificadas como chechenas, invadiram Gresilles, deixando o dono de uma pizaria gravemente ferido no tiroteio; na noite de domingo, a multidão foi ainda maior, com umas 200 pessoas; na segunda-feira, “alguns indivíduos estavam armados com Kalashnikovs e ouviram-se detonações”, descreveu o Le Bien Public, com a France Press a acrescentar que foram disparados tiros para o ar. Já tinham sido registados pelo menos dez feridos na terça-feira.

Não há grandes sinais de que a tensão esteja a diminuir. Aliás, já foram noticiados tiroteios semelhantes em Nice, na costa mediterrânica de França, associados pelas autoridades tanto a tensões comunitárias como a rivalidades entre traficantes.

Entretanto, em Dijon, na fachada de uma loja perto de Gresilles, foi grafitado: “Longa vida a Putin”, notou a Associated Press. O Presidente russo é um aliado próximo de Le Pen, suspeito de ter financiar o seu partido e visto como referência por elementos da extrema-direita, como defensor de uma suposta civilização cristã e conservadora; também é odiado pela maioria da diáspora chechena, boa parte da qual fugiu da dura repressão de Putin ao longo de duas sangrentas guerras na Chechénia, nos anos 1990 e 2000. 

 

Confrontos e estereótipos A raiz das tensões entre os chechenos, maioritariamente muçulmanos, e outras comunidades oriundas de países islâmicos é profunda, lembrou Yéléna Mac-Glandières, investigadora do Instituto Francês de Geopolítica, especializada em estudos russos e pós-soviéticos.

Por um lado, os franceses, como outros, têm “uma imagem global dos ‘bravos lutadores chechenos’, ‘montanhistas malucos’, ‘muçulmanos obedientes’ ou ‘tipos que adoram lutar’, com ‘penteados reconhecíveis e metralhadoras’”, tweetou a investigadora. Por outro, “os chechenos também têm uma visão muito complicada e estereotipada dos ‘árabes’, uma denominação em que eles, na sua representação, geralmente incluem tanto pessoas do Médio Oriente como do norte de África”.

“Pessoas na Chechénia perguntaram-me se nós estávamos ok em França, ‘com todos os terroristas-imigrantes árabes a virem para aqui’, porque isso é o que dá na TV russa”, lamentou Mac-Glandières. Assegurando: “O que a TV russa faz melhor é exportar discursos europeus de extrema-direita para as suas audiências domésticas”.