Biblioteca pessoal

Herr Kafka e Monsieur Proust

Ambos formados em Direito e ambos sofrendo de doenças respiratórias, Marcel Proust e Franz Kafka foram dois dos escritores mais influentes do século XX. Morreram com menos de dois anos de diferença, um em 1922, o outro em 1924.

Nestas últimas semanas, enquanto eu lia a biografia de Franz Kafka escrita por Nicholas Murray, a minha mulher leu Monsieur Proust, as memórias que Céleste Albaret, a governanta do escritor francês, ditou ao jornalista e também escritor Georges Belmont ao longo de cinco meses. Estas leituras em simultâneo pareceram-me uma coincidência curiosa, uma vez que é possível encontrar entre Herr Kafka (formou-se na cultura alemã e escreveu sempre nessa língua) e Monsieur Proust uma série de paralelos.

Nasceram, com doze anos de diferença, ambos em famílias de uma burguesia bem instalada de ascendência judaica. Nunca se casaram. Mantiveram sempre uma ligação fortíssima à infância – pode dizer-se que Proust se alimentava dessas memórias recuadas, enquanto Kafka teimava em não amadurecer e viveu com os pais quase até ao fim. Mesmo em adultos, eram muitas vezes tratados como crianças. Ambos estudaram Direito. Doentes e hipersensíveis, sofriam de doenças respiratórias – Proust de asma, Kafka de tuberculose – que viriam a matá-los precocemente. Tanto um como o outro tinham terror das injeções. E, claro, foram dois enormes escritores, dos maiores do século XX.

Também há entre eles, obviamente, diferenças importantes. Até na forma como lidavam com a doença, que condicionava cada passo, cada decisão que tomavam. Proust temia, mais do que tudo, o frio e as correntes de ar. Kafka chegava a dormir de janela aberta com temperaturas negativas, pois achava que isso lhe fazia bem.

Mas houve outra diferença bem mais relevante, e que viria a ter consequências decisivas nas respetivas obras. O pai de Kafka, que tinha subido a pulso, não admitia que o filho não trabalhasse, pelo que este, depois de terminar o curso, se viu obrigado a ganhar a vida como empregado de escritório. O seu emprego numa seguradora – ‘o Instituto’ – foi fonte de grandes angústias. Kafka vivia ‘esmagado’ entre a família, que o amava mas não o compreendia; o trabalho, que lhe roubava o tempo precioso de que necessitava para se dedicar à escrita; e a doença.

O escritor checo transformou estas angústias em histórias curtas, sombrias, incómodas, que falam de falhanço, de inadaptação e da derrota do indivíduo face à engrenagem da sociedade. Muitas destas histórias ficariam inacabadas, justamente por causa dos compromissos profissionais ou da doença.

Os pais de Proust, pelo contrário, decidiram deixar ao filho uma herança que lhe permitisse viver confortavelmente sem ter de se preocupar com o dinheiro. E ele, depois de anos – décadas – de vida mundana, pôde por fim dedicar-se em exclusivo à sua obra, que assumiu proporções monumentais (ao contrário da do obra fragmentária do escritor checo, que reflete a sua vida espartilhada).

Se Kafka procurava passar para o papel os fantasmas que se agitavam dentro de si e o atormentavam, Proust procurou através da escrita recuperar o paraíso luminoso da infância. Por isso chamou ao seu romance em vários volumes Em Busca do Tempo Perdido. Quando morreu, em novembro de 1922, já tinha conseguido concluí-lo.

Por alturas da morte de Proust, Kafka encontrava-se doente e preso à cama. Restavam-lhe menos de dois anos de vida. Mas ao contrário de Proust, que morreu no conforto do seu luxuoso apartamento, Kafka passou os últimos meses (antes de terminar os seus dias num sanatório nos arredores de Viena) em condições muito precárias. Nicholas Murray conta-nos, por exemplo, que «sem combustível para o fogão, aquecera a refeição de Ano Novo [de 1924] com cotos de velas».

Ainda assim, depois de vários noivados rompidos e de relações atormentadas, o escritor checo contava finalmente com a companhia de uma mulher dedicada. «Afirmou Brod que, mesmo no final da vida, Kafka descobriu uma felicidade que anulou a anterior aversão de si», refere Murray. Não tinha certamente recuperado o tempo perdido, mas tinha conquistado algo igualmente importante, a paz consigo mesmo.

E com a família. Uma das suas obras mais célebres e importantes, a Carta ao Pai (1919), está cheia de recriminações e de rancor. Cinco anos depois, a última carta que escreveu aos pais, a 2 de junho de 1924, tinha um tom bem mais conciliatório. Falava de passarem «uns dias juntos e tranquilos num sítio bonito, a sós». Mas, se os passaram, já não foi neste mundo – Kafka morreu no dia seguinte, a um mês de completar 41 anos.