Cultura

Tiago Rodrigues. "Estamos a fazer das tripas coração para voltar a contactar com o público"

Depois de uma pausa causada pela pandemia, o Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, começou já a trabalhar para o regresso à normalidade. Ao edifício do Rossio têm já nas últimas duas semanas voltado os trabalhadores do teatro. No palco da Sala Garrett, vêm já decorrendo os ensaios necessários para que em setembro, em início de temporada, o teatro possa finalmente regressar a uma programação regular. Enquanto isso, e porque a espera já se faz longa, haverá pontuais hipóteses de voltar a entrar nela, ainda durante o verão. A primeira delas é já neste fim de semana, com By Heart.

Em duas récitas, Tiago Rodrigues regressa a um dos últimos espetáculos que criou enquanto ator antes de ter assumido a direção do D. Maria II, já em 2014, que descreve como o último reduto ao longo destes últimos anos para a profissão que abraçou quando em 1998 se estreou com os Artistas Unidos. Escrito, encenado e interpretado por si, como só poderia um texto tão pessoal, autobiográfico, quanto este, By Heart é também um convite à reunião, à celebração do poder das artes, da criação artística, da literatura, do teatro, da palavra escrita. Que, sim, são e serão sempre uma forma de resistência contra qualquer totalitarismo. Até o que nos trouxe a pandemia.

‘Dito isto… o espetáculo só começa quando as dez cadeiras estiverem ocupadas’ é um início que ganha uma carga quase sarcástica neste novo tempo em que o Tiago regressa a By Heart na primeira reabertura do Teatro Nacional D. Maria II antes do regresso oficial à programação, em setembro.

É um espetáculo muito curioso de se fazer nesta altura. Se por um lado é um espetáculo que coloca desafios particulares na questão da proximidade e da presença física, porque convoca dez espetadores a subirem a palco…

...o palco que, já agora, é o único lugar dentro de um teatro onde é permitido estar-se sem máscara.

Exatamente. Os atores. Quanto aos espetadores já há outro entendimento. Esse é um dos desafios que vamos ter: como é que um espetáculo que desafia dez espetadores a subirem ao palco e a participarem lida com o público neste momento para lá daquilo que seja, obviamente, o cumprimento das regras que iremos seguir escrupulosamente? Por outro lado, não só pelo dispositivo cénico, mas também pelas histórias que são contadas, pela temática dessas histórias, é um espetáculo que de alguma forma celebra a força indomável de podermos estar juntos à volta das palavras.

É quase ato de resistência contra esta nuvem que paira sobre todos nós. Na lógica do voltarmos a estar juntos. Mas como é que podemos voltar a estar juntos?

Acho que é interessante percebermos agora como é que os espetáculos se podem adaptar e não apenas tecnicamente, em termos de segurança, a esta época de pandemia. O problema é o mesmo problema de sempre: como é que uma tragédia grega, 2.500 anos depois de ter sido escrita, nos pode falar do mundo em que vivemos hoje? No caso do By Heart, é a pergunta que coloco a mim próprio agora que ainda não o apresentei, mas em que o revisito na minha imaginação e nos ensaios. Cada vez que apresentamos um espetáculo é uma nova versão, mas a verdade é que o que nos aconteceu, e o que aconteceu especificamente ao teatro durante esta pandemia, faz com que qualquer espetáculo que se apresente agora seja uma nova versão desse espetáculo não apenas por causa da adaptação, mas porque o que dizemos inevitavelmente vai falar também deste tempo. E, sim, este espetáculo fala muito da importância de estarmos juntos numa sala, da importância de estarmos juntos à volta das palavras e de como elas nos podem transformar em coletivo de novo. Começa com uma coleção de indivíduos, um sozinho em palco e uma plateia de gente, e termina com um coletivo. E essa construção do coletivo é neste tempo mais importante do que nunca e ao mesmo tempo um desafio maior do que nunca.

Neste espetáculo há de facto ideias que ecoam no momento particular que atravessamos, e cito um exemplo: ‘Aprendemos durante o século XX que nos podem tirar tudo, aprendemos que somos presas errantes’, mas ‘aquilo que carregamos em nós os filhos da mãe não nos podem tirar’. No caso, fala-se dos livros e da palavra escrita que é possível carregar-se, sim, na memória.

É de alguma forma a memória da arte. Se na peça falo do totalitarismo político, também falo do totalitarismo biológico que é por exemplo envelhecer ou ficar cego. E nesses momentos de maior cerco, de maior sofrimento, é curioso notar como as coisas fundamentais que guardamos em nós ganham uma nova força, nomeadamente a memória da arte. Esta pandemia é também ela uma forma de totalitarismo. Privou-nos de liberdades, privou-nos de direitos, privou-nos de estarmos juntos, condicionou-nos a todos e foi curioso notar como muitas pessoas recorreram à memória da cultura, à memória das artes neste tempo em que estiveram confinadas. De alguma forma o By Heart agora tem essa dimensão também. Não sei bem o que é que mudou ou vai mudar na forma como vemos ou fazemos teatro, não consigo fazer essas profecias. No caso do By Heart, há uma coisa muito curiosa: sempre que tinha espetadores na sala sentia que havia alguns que sabiam do que estava a falar quando falava na arte como forma de resistência, porque há tinham vivido experiências que lhes tinham provado isso, e outros que, embora inspirados pela ideia, nunca o tinham vivido. Era como se estivessem a ouvir alguém a defender uma ideia teórica que nunca tinham vivido. Acho que agora vou estar face a um público que sabe perfeitamente do que estou a falar.

A palavra que é utilizada para o ato de decorar o texto, a tal forma de podermos passar a carregá-lo em nós, é ‘ingerir’.

Comer o texto, sim.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa do SOL. Agora também pode receber o jornal em casa ou subscrever a nossa assinatura digital.