Pátio das Cantigas

Os ‘jogos de espelhos’…

O risco de contágio varia consoante a maré ideológica. Se for de extrema-esquerda, até podem exibir-se cartazes de incitamento à violência contra polícias

Vivemos tempos estranhos e a culpa não cabe apenas à pandemia. No 10 de Junho, o Presidente juntou meia dúzia de personalidades nos Jerónimos e quis convencer o país de que esse modelo minimalista correspondia àquilo em que estava a pensar quando, em plena emergência, abriu exceções para que fossem comemorados o 25 de Abril (sem máscara…) no Parlamento e o 1.º de Maio (‘coreografado’) na Alameda.

Depois, o Governo proibiu os festivais de música de Verão, ficando ainda canceladas todas as festas e romarias, para acautelar o risco de contágio do coronavírus. Em contrapartida, o primeiro-ministro não se inibiu de declarar numa entrevista que não lhe «passa pela cabeça proibir a atividade política», quando questionado sobre a realização da Festa do Avante! do PCP.

O futebol joga-se perante bancadas vazias e as touradas continuam suspensas, mas a praça do Campo Pequeno reabriu e encheu-se para acolher dois espetáculos de um entertainer na moda, com honras de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa na plateia.

As praias, centros comerciais ou restauração continuam sujeitas a restrições severas. Porém, e sem o menor incómodo por parte das autoridades sanitárias ou de segurança, desfilaram manifestações antirracistas, juntando a extrema-esquerda indiferenciada e o Bloco, enquanto o PCP se ‘desconfinava’ num comício ao ar livre no topo do Parque.

O risco de contágio varia, portanto, consoante a maré ideológica.

Se for de extrema-esquerda podem exibir-se, inclusive, cartazes de «incitamento à violência» contra polícias, conforme denunciaram as associações profissionais do setor. Do Governo, habitualmente tão lesto, nem uma palavra.

As contradições oficiais não se ficaram por aqui. Nos Santos Populares, os poderes públicos exortaram os moradores dos bairros tradicionais a absterem-se de quaisquer festejos, e ameaçaram-nos mesmo com reforço da vigilância policial, não fosse algum ‘atrevido’ montar no pátio um arco e um balão.

Chegou-se mesmo ao ridículo, em vésperas de Santo António, de a «Polícia mandar retirar manjericos de papel e fitas em bairros de Lisboa», segundo o insuspeito site da TSF.

Esta vaga restritiva obrigou mesmo a diretora-geral de Saúde a desdizer-se, por ter admitido que «nada impede uma esplanada, música, um grelhador e umas belas sardinhas». Perante tamanho ‘deslize’, repetiu a triste figura que tem feito noutras ocasiões.

A discricionariedade ganha terreno. E a ‘cultura do medo’ alimenta-se dela. Nos regimes totalitários, serve também para se vangloriarem. A China é um bom exemplo. Chamou a si o ‘êxito’ no controlo da pandemia, para reclamar as virtudes do seu autoritarismo, em comparação com a liberalidade das democracias ocidentais.

A quem duvidar, recomenda-se a leitura do texto publicado no jornal estatal Rémin Ribào (que citamos do Courrier Internacional), onde se escreve que «esta crise é, também, um teste à capacidade de governação (…). Demonstrámos que o sistema socialista ao estilo chinês satisfazia as necessidades da época, constituindo uma garantia institucional e um saber-fazer valioso na guerra mundial contra pandemia».

A transcrição justifica-se para clarificar o aproveitamento chinês da crise provocada por um vírus que nasceu e se espalhou a partir do seu território.

Entretanto, por cá, o ‘posso, quero e mando’ faz o seu caminho, como o comprova (a quase certa) ida de Mário Centeno para o Banco de Portugal.

Irritado e pouco dado a subtilezas, António Costa interrogou os jornalistas sobre se «Mário Centeno cometeu algum crime?», em resposta à ‘lei-travão’ em debate no Parlamento. De facto, não se trata de ‘crime’, mas de um ‘fato à medida’, alinhavado entre o primeiro-ministro e o ex-ministro, que, à falta de melhor cargo internacional, quer ser governador do BdP. E ambos querem ‘tapar o sol com a peneira’.

Este ‘jogo de espelhos’ aplica-se a Pedrógão Grande, três anos depois dos incêndios que vitimaram 66 pessoas. A Justiça tarda no apuramento de responsabilidades, Marcelo Rebelo de Sousa quer «investigação até ao fim», como exigiu em relação ao assalto a Tancos, com os resultados que se conhecem.

Mas haja esperança porque a covid-19 não dura sempre. Lisboa vai ter o ‘privilégio’ de organizar a Final Eight da Liga dos Campeões, com direito à felicidade das principais figuras do Estado, reunidas em Belém para partilharem o evento. E mais para o inverno, será a vez do Web Summit, uma feira de vaidades tecnológicas inventada por um irlandês esperto que descobriu, com proveito, o fascínio lusitano por tais brilhos.

E se no meio deste ‘reino de faz-de-conta’ houver ainda alguém que se atreva a falar de crise, decerto que não será um bom patriota…