Economia

Economia portuguesa em queda livre

O Banco de Portugal está mais pessimista do que o Governo e aponta para uma queda do PIB de 9,5% e uma taxa de desemprego de 10,1% em 2020. Analistas contactados pelo SOL dizem que avançar com números é ‘fazer astrologia’.

 

Os dados económicos continuam a não ser animadores. O Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou esta sexta-feira que a economia portuguesa continuou a contrair em maio, apesar de ter sido a um ritmo menos acentuado face a abril. «Em Portugal, não considerando médias móveis de três meses, a informação disponível revela uma contração menos intensa da atividade económica em maio, quando comparada com o mês anterior», diz o relatório.

Por setores de atividade, os indicadores de confiança aumentaram de forma moderada na construção e obras públicas e no comércio, mas diminuiram na indústria transformadora e nos serviços, atingindo novos mínimos.

Já o indicador de atividade económica que só está disponível para o mês de abril dá conta de que, nesse mês, registou o valor mais baixo da série de dados, «sobretudo devido à diminuição abrupta do consumo duradouro, em particular da componente automóvel». Recorde-se que a venda de automóveis ligeiros de passageiros registou contração de 74,8% em maio (face a 87% em abril) e a dos comerciais foi de 51,3% (contra 69,9% em abril). Nos veículos pesados, a quebra foi de 68,5%, contra os 72,7% registados no mês anterior. Também o indicador de investimento registou em abril a redução mais intensa desde dezembro de 2012.

E as perspetivas não são animadoras. O Banco de Portugal prevê uma recessão económica de 9,5% em 2020 devido à pandemia de covid-19, com recuperações de 5,2% em 2021 e 3,8% em 2022, de acordo com o Boletim de março, divulgado esta semana. Uma projeção mais pessimista do que a do Governo, que aponta para uma queda do PIB de 6,9% este ano, e também do que a do Conselho das Finanças Públicas (7,5%), Comissão Europeia (6,8%), OCDE (9,4%) e Fundo Monetário Internacional (8%).

Os analistas contactados pelo SOL admitem que as incertezas em relação ao futuro continuam a ser muitas. «Neste momento, procurar determinar com precisão a queda do PIB rasa a astrologia», admite André Pires, analista da XTB. Mas garante que o Governo está «a menosprezar o impacto da atual crise nas PMEs, do qual a recuperação das empresas deverá ser mais longo do que o esperado, se conseguirem sobreviver e evitar a insolvência. Principalmente o setor de turismo, do qual nos tornamos parcialmente dependentes, está com muita dificuldade em recuperar-se». 

Também Francisco Alves, analista da corretora Infinox, lembra que estas projeções estão sempre dependentes de uma segunda vaga do vírus. «Com a reabertura da economia e a publicação de alguns resultados, conseguimos ter uma melhor perspetiva do futuro económico em Portugal», diz ao SOL. 

A entidade liderada por Carlos Costa admite que a redução projetada para o PIB em 2020 é muito significativa, «excedendo largamente as quedas observadas nas recessões mais recentes, sendo necessário recuar aos anos 20 do século passado para encontrar uma queda desta magnitude». 

No entanto, assinala uma recuperação a partir do segundo semestre de 2020 e em 2021 será mais acentuada, caracterizando-se «por uma retoma mais célere do investimento - assumindo que as medidas de política adotadas limitam o impacto da crise sobre o tecido empresarial e que o investimento público se mantém relativamente dinâmico».

Uma expectativa que vai ao encontro da opinião do analista da Infinox. Para Francisco Alves, os investimentos devem ser feitos em áreas da saúde e bem-estar, bem como no turismo, setor com grande peso no PIB português. Mais pessimista está André Pires, que considera que o investimento no segundo semestre também poderá ser tímido devido à conjuntura incerta do mercado global. «Teremos de aguardar para saber se o outono trará uma segunda onda de contágios por covid-19, uma vez que não é expectável que um tratamento chegue os mercados antes do final do ano», diz ao SOL. E acrescenta: «Para incentivar o investimento, o Governo deveria diminuir impostos e flexibilizar as contratações. No entanto, o atual procedimento do Governo nos últimos anos tem sido o completo oposto».

Exportações e desemprego em queda livre

O Banco de Portugal prevê ainda uma queda de 25,3% das exportações, admitindo que a recuperação projetada «é mais lenta do que a observada na sequência das recessões anteriores, o que reflete as tensões comerciais existentes e, sobretudo, o comportamento das exportações de turismo», que aumentaram nos últimos anos e foram muito afetadas pela pandemia de covid-19. 

No entanto, o banco central revela que deverão recuperar em 11,5% em 2021 e 11,2% em 2022. Já as importações deverão ter uma quebra de 22,4% este ano, crescendo 13,5% em 2021 e 8,5% em 2022.

Quanto à taxa de desemprego, o BdP prevê que a taxa de desemprego seja de 10,1% em 2020, diminuindo para 8,9% em 2021 e 7,6% em 2022, e aponta para uma quebra de 4,5% do emprego este ano. Mais uma vez, esta estimativa fica acima da meta do Governo, que prevê uma taxa de desemprego de 9,6%, mas abaixo das perspetivas do Fundo Monetário Internacional para Portugal, que é de 13,9% em 2020, do Conselho das Finanças Públicas, 11%, e da OCDE, 11,6%.

«O impacto da crise sobre o mercado de trabalho tenderá a ser atenuado ou desfasado pela existência de políticas que visam preservar o emprego e a liquidez das empresas», aponta o banco central, sustentando que «o perfil temporal das variáveis do mercado de trabalho dependerá do impacto e duração dessas políticas».

«Para 2021-22 antecipa-se uma recuperação do emprego, que não será no entanto suficiente para retomar o nível de 2019», diz ainda o BdP, que faz os cálculos «num cenário em que a população ativa deverá permanecer relativamente inalterada em média no horizonte de projeção».

André Pires Lembra que a quarentena forçada e os bloqueios levaram muitos pequenos estabelecimentos, nomeadamente hoteleiros, a despedirem pessoal, o que lhes acarreta muitos custos de compensação. «E os estabelecimentos que não despediram, caso não vejam uma recuperação, poderão começar a despedir tarde demais. O mesmo se pode dizer de vários outros setores. Daí que não seria de espantar que a taxa de desemprego venha a ser superior à prevista pelo Governo», afirma.

Já para Francisco Alves, este cenário do regulador é pessimista, tendo em conta os valores anteriores. Mas, uma vez mais, chama a atenção: «Está dependente da evolução do vírus e no caso de uma segunda vaga, os números poderão ser ainda piores».

Riscos 

Mesmo com as perspetivas pouco animadoras, há ainda que contar com riscos acrescidos que poderão ter impacto no orçamento. Nesses casos incluem-se as injeções de capital na TAP e no Novo Banco, que poderão ser maiores do que o previsto atualmente no Orçamento Suplementar. As contas são da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO), que apontam para um aumento da despesa primária (excluindo os encargos com a dívida pública) em 1.170 milhões de euros face ao Orçamento do Estado aprovado inicialmente para 2020 - isto em contabilidade nacional, a que assume as regras europeias, dos compromissos. Este montante engloba 946 milhões do empréstimo a conceder à TAP. No entanto, a UTAO afirma que, em contabilidade pública, esta operação está orçamentada em 1.200 milhões de euros, «o que indicia um forte risco ascendente sobre esta despesa».

Além desta operação, o Orçamento Suplementar «deverá também refletir a recapitalização do Novo Banco realizada no segundo trimestre por um valor superior ao previsto inicialmente», afirma a UTAO. No Orçamento do Estado para 2020 estava prevista uma recapitalização do banco, através do Fundo de Resolução, de 600 milhões de euros em 2020. No entanto, no segundo trimestre, o impacto orçamental foi superior, tendo ascendido a 1.035 milhões. 

Preocupações que vão ao encontro dos economistas contactados pelo SOL. 

Para Francisco Alves, a injeção de dinheiro nestas empresas não era algo esperado e, por isso, é expectável que o impacto orçamental seja maior. Já André Pires, acredita que o impacto orçamental destas duas operações não parece estar inteiramente contemplado na revisão em alta das despesas de capital.

E os riscos não ficam por aqui. Também a presidente do Conselho de Finanças Públicas (CFP), Nazaré Costa Cabral, já veio alertar para os «riscos descendentes» apresentados no Orçamento Suplementar, nomeadamente no que diz respeito à subestimação da queda do consumo privado.