A pandemia acelera com o Brasil no olho do furacão

Apesar do Brasil ser o país que mais contribuí para o número de novos casos de covid-19, Bolsonaro acha que houve “um pouco de exagero” na resposta.

Ontem, no dia em que o planeta ultrapassou os nove milhões de infeções registadas de coronavírus, logo após a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciar um número recorde de 183,020 novos casos em 24 horas, é cada vez mais óbvio que a pandemia está a acelerar, sobretudo no continente americano. Os Estados Unidos não ficam muito atrás, mas é no populoso Brasil que a covid-19 mais alastra: foi o segundo país a bater o milhão de infeções e as 50 mil mortes – teme-se que dezenas de milhares outras vítimas tenham ficado por registar.

Ainda assim, apesar dos números dramáticos, ainda ontem o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, insistiu que o “talvez tenha havido um pouco de exagero” na maneira como o mundo reagiu à pandemia. “A gente apela aqui aos senhores governadores e prefeitos que, obviamente com responsabilidade, comecem a abrir o comércio”, declarou Bolsonaro, que continua em choque com dirigentes regionais, que impuseram as medidas de isolamento social que o Governo federal recusou. É que o Presidente teme que, face à quebra económica, “o efeito colateral do tratamento da pandemia seja mais danoso que a própria pandemia”.

Contudo, importa lembrar que não é só o Governo federal que está sob fogo devido à covid-19: o Governador de São Paulo, João Dória, um antigo aliado do Presidente que recentemente se virou contra o bolsonarismo, deixou de fora das estatísticas mais de 11 mil casos, desde 7 de abril, avançou a Piauí, esta semana. A diferença terá levado o estado a reabrir mais depressa do que o estipulado no próprio plano de Dória.

Entretanto, o estado paulista ultrapassou os 220 mil casos, com mais de 12600 mortos, esta segunda-feira. Como uma novidade: até agora, a pandemia tinha-se centrado na cidade de São Paulo em si, poupando as áreas em seu redor, mas essa lógica inverteu-se ontem, com o interior a registar 51% dos casos, segundo o Correio. 

 

Reabertura? É difícil dar uma imagem geral do que se passa no Brasil, onde parte da competência para responder à covid-19 fica nas mãos do Governo federal, outra nas autoridades estaduais ou até municipais – e a cooperação entre estas entidades é muito escassa. No entanto, um levantamento da Agência Brasil verificou que cada vez mais estados se preparam para abrir, apesar da aceleração da pandemia – pelo menos 17 estados já têm planos para isso.

Até no estado do Amazonas, que teve mais de 63 mil casos registados de covid-19, devastando as comunidades indígenas, já começou a reabertura. Desde a semana passada estão a funcionar serviços não-essenciais, como livrarias, assistência técnica, imobiliárias, comércios cosméticos, de animais e de materiais de escritório.

Além disso, esta semana comeram a ser retiradas as enormes câmaras frigoríficas instaladas nos hospitais de Manaus, a capital de Manaus, para guardar o número aterrador de cadáveres de vítimas da pandemia.