Opiniao

Roubam-nos os abraços

A pandemia trouxe-nos muitas coisas más, mas também permitiu descobrir benefícios insuspeitados.

Vamos na quarta fase do desconfinamento… e nada de abraços. E dizem-nos que, até haver vacina eficaz, estaremos condenados a renunciar ao toque físico – nem aperto de mão, nem abraço, nem beijo. 

Confesso a minha dificuldade em imaginar um mundo de gente mascarada, sem o convívio social que, por muitos séculos, foi o emblema da civilização. Mas custa-me ainda mais pensar que, tão cedo, não haverá abraços. 
A pandemia trouxe-nos muitas coisas más, mas também permitiu descobrir benefícios insuspeitados. Cada um fará contas ao que ganhou, mas é de crer que o bem mais apreciado tenha sido o tempo: tudo indica que, agora, nos sobra em tempo o que falta em proximidade. 

O imprevisto veio dar-nos uma nova medida para avaliar o tempo outrora gasto a tratar de pseudo-urgências ou investido na procura da eficiência, que profetas encartados asseguravam ser a arma para derrotar os concorrentes, se possível, esmagá-los. Era o que ordenava a cartilha para triunfar, nos anos em que não se admitia coisa diferente que sair vencedor, tanto no plano individual como no coletivo. 

Foi nessa nova ordem que emergiu o ‘Deus do Sucesso’, ao qual até as universidades se renderam, trocando a missão de formar cidadãos do mundo pela preparação de uma espécie de gladiadores, obrigados a triunfar em todas as atividades, da família à profissão e aos hobbies. Os que não venciam eram loosers, um carimbo que significava guia de marcha para o consultório do psiquiatra.

No mundo dos negócios, a palavra ‘greed’ deixou de significar ‘ganãncia’ para surgir ornada com as virtudes da ‘ambição’ a marca de água exclusiva dos CEO visionários. Consultores pagos a peso de ouro acorreram às grandes empresas para levar a boa-nova: sem ambição, não há resultados! Quase todos acreditaram, não lhes ocorrendo que foi a ambição de um rei fraco que o fez perder o reino nas areias de Alcácer Quibir. 

Um dia, a sociologia explicará como foi possível que toda uma geração de decisores se rendesse a discursos armadilhados com ‘inglês técnico’, insistentemente repetidos por gente treinada para convencer que é ouro o pechisbeque que vendem. 

Tão forte era a persuasão, tão sedutores eram os cenários, que a maior parte se convenceu de que as curvas das vendas, das receitas, dos lucros e dos dividendos cresceriam sem parar. Azar dos azares, veio a subprime e desmoronaram-se os empreendimentos fabulosos que, afinal, não passavam de castelos de areia. 

Passaram dez anos. A covid trouxe o confinamento e, com ele, o tempo para pequenos almoços sem correrias, mas são inúmeros os que descobrem que lhes falta o gosto para os saborearem. Tivessem resistido à ditadura das urgências e poderiam tê-lo treinado nas viagens em que, sistematicamente, trocavam o prazer da mesa pela tristeza do room service.
Uma crença semelhante à de Dom Sebastião fê-los sonhar com futuros radiosos e doces outonos em que o tempo lhes sobraria. Agora, a pandemia trocou-lhes as voltas: condenou-os à reclusão e roubou-lhes os abraços.