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Vamos contar mentiras e alimentar ilusões?

A saga Mário Centeno constitue uma verdadeira farsa, representada por três personagens principais: o próprio, o primeiro-ministro e o Presidente da República.

Num país normal o que teria de ser discutido esta semana no espaço público, era a opção do Governo sobre a recuperação da economia portuguesa, conhecida pela na divulgação de um PEES (Programa de Estabilização Económica e Social) e concretizada na apresentação de uma proposta de Orçamento Suplementar para o corrente ano.

Se outros motivos não existissem (por exemplo, a evolução muito negativa dos indicadores económicos avançada pela totalidade de todas as instituições especializadas) bastava estar atento às mensagens do Sr. Presidente da República, no Dia de Portugal, para entender qual devia ser a prioridade.

Com efeito, afirmou o Professor Marcelo Rebelo de Sousa : «É a altura de acordar para a mudança necessária» e «percebemos bem o que se passou? ou preferimos voltar ao passado?». 

Declarações inequívocas, em certo sentido brutais, que demonstram, claramente, que um reclamado e exibido ‘otimismo irritante’, com o qual, aliás, o PR pactuou algumas vezes, não tem razão de ser e será, a persistir, muito prejudicial à evolução futura da economia e sociedade portuguesas. Reconhecer erros é a melhor maneira de os corrigir. Serão capazes?

Por isso se torna ainda mais incompreensível que este não tenha sido o tema âncora da discussão política em Portugal.

É verdade que o tal PEES, apesar das suas 113 páginas, não é muito entusiasmante (um zero disseram alguns) e que o correspondente Orçamento Suplementar acabará por ser aprovado sem grandes modificações, como o deseja e impõe o Governo, ao lembrar de forma bizarra, a lei-travão, mas, mesmo assim, não se justifica tanto alheamento.

Afinal, o nível, rapidez e qualidade da nossa recuperação, estando dependente dos apoios que vierem a ser mobilizados da União Europeia (e atenção, porque nada está aprovado sem que tudo esteja aprovado) resultará também, em boa parte, da forma como decorrer, até ao fim do ano, esta intervenção intercalar na economia.
Infelizmente, devemos temer o pior, pois a inconsistência, a discricionariedade e a provável ineficácia de muitas das medidas apresentadas, não tornam o PEES atrativo para mobilizar os milhares de milhões que alguns esperam da União Europeia. Isto sem prejuízo, da qualidade do trabalho que o consultor, recentemente recrutado para desenhar o plano de recuperação da economia portuguesa, apresentará.

Saber-se-á em breve, mas, entretanto, não seria tempo perdido, meditar numa das mais recentes afirmações da Comissária Elisa Ferreira a propósito deste assunto: «mais do que discutir verbas, há que pensar o que fazer com elas».

Como as coisas são o que verdadeiramente são e não aquilo que alguns de nós gostariam que fossem e depois de andarmos distraídos, a propósito da epidemia, com uma cruel competição pela ‘taça do mal menor’ (supostamente essa ilusão, baseada em contradições, absurdos e meias verdades, já terá passado), divertimo-nos, agora, a discutir, opinar e prever o passado/presente/futuro do Prof. Mário Centeno.

A saga Mário Centeno ficará na ‘estória’ política de Portugal como um dos episódios mais delirantes, pois constitui uma verdadeira farsa, representada por três personagens principais: o próprio, o primeiro-ministro ministro e o Presidente da República.

O ex-ministro das finanças foi recrutado no gabinete de estudos do Banco de Portugal, para coordenar a elaboração do programa económico que o PS apresentou nas eleições de 2015.

Considerado um economista competente, tinha-se evidenciado sobretudo em estudos sobre políticas de emprego com um contributo muito importante na área da flexisegurança (um liberal?).
As eleições correram mais ou menos bem e o PS, apesar de não as ter ganho, conseguiu formar governo pelo que Mário Centeno assumiu a pasta das finanças.

Aproveitando uma conjuntura muito favorável (mudança de atitude das instituições europeias, política monetária do BCE, recuperação económica dos países parceiros de Portugal..) e aplicando instrumentos próprios (alteração da estrutura da fiscalidade, cativações, diminuição do investimento público..) o ministro apresentou resultados aceitáveis que, magistralmente mediatizados, o transformaram numa espécie de herói.

Dotado de indiscutível competência mas, também de um enorme ego (Fernando Medina disse-o ‘a contrario’ quando definiu o seu substituto) Centeno não percebeu que o êxito que ganhara iria ser o motivo fundamental para uma sua oportuna substituição.

A questão passou a ser apenas a de controlar os danos pessoais e isso foi obtido com um entendimento nada transparente, próprio de uma democracia minimalista, envolvendo os três atores principais da peça . Centeno deixa o Governo e a presidência do Eurogrupo e tem agora à sua espera a cadeira de sonho de governador do Banco de Portugal.

Ninguém sai muito bem nesta fotografia mas quem sai pior é o país que, num período de forte disputa pela ajuda europeia, perde, ingloriamente, o único lugar relevante que mantinha nas instituições ou seja o de presidir ao Eurogrupo, apesar de esse cargo, recorrentemente, um motivo de propaganda do Governo.

Agora parece ser pouco relevante o ‘feio’ abandono do ministro das suas funções, num período particularmente crítico da economia portuguesa, pois talvez se perceba, mais tarde, que ele não saiu, antes foi ‘convidado’ a sair.

Com uma peça teatral tão interessante, porque deviam os portugueses preocupar-se com outras questões?