Sociedade

Portugal entre os países com maior taxa de deteção de casos?

Universidade britânica mantém análise positiva. Investigador admite injustiça nas comparações, mas alerta que risco é alto.

As últimas projeções do Imperial College, divulgadas esta terça-feira, voltam a calcular que Portugal é, neste momento, dos países europeus com um menor índice de contágio, só atrás da Irlanda. Os investigadores estimam para esta semana um RT de 0,48 (0,10 - 0,81).

Como o i já tinha noticiado, o método usado pela universidade britânica é diferente do seguido pelo INSA, que tem apontado para um RT em torno de 1. Já o cálculo da percentagem de casos que estão a ser detetados, um indicador que tem por base a evolução do número de mortes nos últimos 14 dias para extrapolar o número de casos expetável a partir da taxa de letalidade, coloca agora Portugal entre os países do mundo com maior taxa de deteção. Apontam mesmo para uma deteção de 100% dos infetados, o que só acontece no Kuwait, Omã e Emirados Árabes Unidos.

A análise dos investigadores que dão apoio a Downing Street, que esta terça-feira se soube poderá excluir Portugal da lista de países a visitar sem quarentena, dá assim uma perspetiva menos negativa da situação nacional que a que tem por base o número de novos casos reportados nos últimos dias, em que Portugal surge atrás da Suécia. Por exemplo, no Reino Unido, estima uma deteção de 15,5%. Na Alemanha, 30%. Estará certo?

Óscar Felgueiras, matemático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto que desde março trabalha na modelação da epidemia, defende prudência na análise e sublinha que os cálculos seguidos pelo Imperial College assentam no número de óbitos, o que pode levar a um enviesamento, dada a baixa letalidade que se tem registado no país. O investigador adverte mesmo que é impossível uma deteção de 100% dos casos. “Para estar correto, quereria dizer em particular que todos os assintomáticos saberiam estar infetados. É um facto que somos dos países que mais testam, mas este indicador reflete acima de tudo a baixa proporção de óbitos face aos casos detetados”. Em relação ao índice de contágio, o investigador faz a mesma ressalva. “Dito isto, é um indicador a partir do qual se podem tirar algumas conclusões comparativas e que reflete uma certa perspetiva em que o país se destaca pela positiva a nível europeu. Mas é importante notar que dá uma medida de velocidade de contágio, eventualmente subestimada, que nada diz sobre o número de casos atual”.

O investigador diz que a situação nacional merece preocupação, mas admite uma injustiça relativa na forma como tem sido retratada a nível externo, tendo em conta que há outros países onde pode estar a haver uma subestimação de casos. “É conhecido que os critérios de testagem não são uniformes nos diferentes países e, por vezes, mesmo dentro de alguns países. Um país que só testa casos sintomáticos, obviamente, terá menos casos do que outro que faz rastreios frequentes”, explica. “Existem outros países com situação real semelhante ou pior que a nossa em termos de proporção de casos ativos na população, mas que conseguem escapar aos critérios que têm sido estabelecidos. Como não é fácil fazer uma estimativa real da incidência do vírus na população, o indicador preferencial tem sido o rácio do número de casos em determinada janela temporal (sete ou 14 dias) por número de habitantes”, diz Óscar Felgueiras. “No entanto, é um facto que a situação atual no país não é a ideal”, ressalva. “Existem razões para preocupação quer com Lisboa, quer com o resto do país. O número de casos ativos em Lisboa e Vale do Tejo está, de momento, no seu valor máximo. Não temos fronteiras internas, pelo que aquilo que afeta Lisboa vai inevitavelmente ter consequências no restante território”, alerta. Neste sentido, Óscar Felgueiras considera positivas as últimas medidas anunciadas pelo Governo. “Não é ainda seguro que sejam suficientes. Muito do que vai acontecer depende também do comportamento da população. Diria que a maior preocupação é mesmo a transmissão de forma eficaz do real nível de risco atual, o qual permanece particularmente elevado”, conclui.