Hoje Escrevo Eu

A nova praga de Lisboa

Com a escola de quem nasceu em terra que tradicionalmente fez da bicicleta o meio de transporte das suas gentes, fico estupefacto (para usar termo em voga) com a opção de quem manda na capital e esbanja milhões do erário público em ciclovias sem sentido.

Porque não têm mesmo sentido. Ou melhor, têm tanto sentido como a parolice dos prédios de paredes de vidro importados dos países do norte da Europa e asiáticos – onde toda a energia e calor do Sol retidos por tais edifícios ainda assim não dispensam os sistemas de aquecimento e onde é proibido abrir uma janela, que desestabiliza o ambiente interior, ou ir à varanda, simplesmente porque não há. Cá, o efeito de estufa chega a obrigar a ligar o ar condicionado no frio durante o inverno e nem no máximo impede as temperaturas insuportáveis no verão. Além do excesso de luz natural durante o dia que obriga a recorrer à... luz artificial. E além de que a falta de varandas e de estendais à antiga implica recurso a máquinas de secar roupa e outros aparelhos considerados próprios dos edifícios chamados inteligentes e que, num clima como o de Portugal, são, sim e a todos os títulos, impróprios, uma burrice.

A Murtosa, onde nasci, no distrito de Aveiro, é o concelho português com maior taxa de utilização da bicicleta. E bicicleta ‘a sério’ – já que predominam ainda hoje as ‘pasteleiras’ de quadro alto para os homens e travessão reclinado para as mulheres, sem mudanças nem qualquer outro facilitador adicionado à roda dentada dos pedais.

Lá, fazem todo o sentido.

O clima é ameno durante praticamente todo o ano, são raros os dias de verdadeira intempérie no inverno – e nada que um bom agasalho, um oleado e o chapéu de chuva não permitam contrariar – e também pouco comuns os dias de calor excessivo no verão – mas também nada que um lenço ou um chapéu, umas braçadas na ria ou um mergulho no mar não compensem.

E, sobretudo, porque em todo o concelho só há duas subidas ou uma subida e uma descida para cada um dos sentidos da Ponte da Varela, que liga o Bunheiro às Quintas do Norte, ou Pardelhas à Torreira.

O resto é tudo plano. E nos concelhos vizinhos também.

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