Sociedade

"Não podemos correr o risco de um novo shutdown no SNS"

O próximo Inverno pode ser a tempestade perfeita, alerta Alexandre Lourenço. O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares defende uma avaliação do impacto da paralisação do SNS nos últimos meses na resposta aos casos não covid-19, que considera essencial para estabelecer prioridades para a recuperação de atividade.

Alertou esta semana para os milhares de portugueses que estiveram sem acesso à saúde. Começa a ser mais preocupante do que a forma como o país está a responder ao vírus?

Inicialmente a resposta à pandemia foi bastante cautelosa e acertada no sentido de direcionar os recursos que tínhamos para a resposta à covid-19, devido ao grau de incerteza que havia. Sabíamos, à partida, que o sistema de saúde a funcionar normalmente não teria capacidade para responder. Agora a uma determinada altura fazia sentido perceber, vendo os impactos que estava a haver nos níveis de acesso, que os hospitais não poderiam ter resposta unicamente à covid-19 e tinham de começar abrir, aliás, como se foram vendo os sinais noutros setores. Os sinais de que isso era necessário começaram a aparecer logo em abril, com três estudos académicos, da ENSP, da Universidade Medicina do Porto e da Universidade de Medicina de Lisboa, que começam a dar nota do aumento da mortalidade para além da covid-19.

Na análise da mortalidade, a DGS inclui o período de janeiro a junho, o que resulta num menor excesso de mortalidade do que é calculado por esses estudos. Sente que tem havido uma desvalorização?

Mesmo em relação à quebra de atividade, o Ministério da Saúde optou sempre por fazer uma avaliação desde o início do ano e não apenas da fase covid-19, o que do nosso ponto de vista não faz sentido. Em 2019 existiu uma perturbação da atividade cirúrgica no país com a greve cirúrgica nos maiores hospitais, não faria sentido estar a considerar os meses de janeiro e fevereiro, em que havia um aumento grande da atividade do SNS comparando com o ano passado. Para nós o que faz sentido é avaliar concretamente a partir de 15 de março, quando houve uma instrução para os hospitais suspenderem a atividade não urgente. É é preciso distinguir os diferentes efeitos, o impacto que teve a redução de oferta e o impacto da redução da procura.

O medo que levou as pessoas a deixarem de ir aos hospitais.

Sim, e depois há um terceiro efeito muito preocupante que se vai avolumando ao longo do tempo e que é quase um efeito de cascata. A partir do momento em que encerro consultas nos centros de saúde deixo de ter diagnósticos, as pessoas deixam de ser referenciadas para os hospitais, os hospitais não fazem primeiras consultas, não fazem exames diagnósticos e não fazem propostas terapêuticas. Os programas de rastreio da mama, de cólon e reto pararam. Na maioria das patologias, quanto mais tarde se fizer a deteção, menor hipótese de sucesso.

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