Pátio das cantigas

O desnorte mais a sul…

A ‘parceria’ funciona e já nem se procura disfarçar. Se o Presidente derrapa, o primeiro ministro acode-lhe. Se o primeiro-ministro dá um passo em falso, sai de Belém o ‘pronto-socorro’, sempre em estado de prontidão   («no papel de atrelado de Costa», no dizer pitoresco de João Miguel Tavares, que já foi ‘estrela’ num 10 de Junho). Q

A esta hora, com o regredir da situação e o aumento continuado de infetados na grande Lisboa e não só, as experiências recentes de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa, num rodopio de idas à praia, a restaurantes, a mercados e a espetáculos ‘na moda’ – seguidos, invariavelmente, pelas televisões –, devem ter um sabor amargo, agravado depois da eufórica ‘encenação’ em Belém, por causa do Champions. 
E o pior é que todos se arriscam a ‘beber do mesmo cálice’, mesmo sem terem ido a banhos, ou serem devotos da fase final da Liga dos Campeões em Lisboa –ou, tão-pouco, terem participado em festas ‘ilegais’ ou manifestações e concentrações políticas toleradas. 

A curva epidémica, cada vez menos ‘achatada’, está a comprometer o ‘milagre’, e a adensar as sombras sobre o futuro próximo – quer no plano sanitário, quer no económico. 
E, no entanto, raramente houve no passado um corredor tão estreito e cúmplice entre Belém e São Bento. De facto, desde que a democracia retomou o seu curso, é improvável encontrar outro ‘estado de graça’ equiparável ao de António Costa. 

Com a conivência do Bloco e do PCP – e a abstenção tática do PSD –, Costa instalou-se, reabilitou os mais fiéis de Sócrates, e, embora tenha falhado a maioria absoluta, age como se a tivesse.
No meio de tamanha ‘harmonia’, que lembra ‘águas passadas’ – juntando os Presidentes da República e do Parlamento, Governo, oposição e media –, o covid-19 só veio ‘engrossar’ este ‘caldo institucional’ paralisante. 

A ‘parceria’ funciona e já nem se procura disfarçar. Se o Presidente derrapa, o primeiro ministro acode-lhe. Se o primeiro-ministro dá um passo em falso, sai de Belém o ‘pronto-socorro’, sempre em estado de prontidão   («no papel de atrelado de Costa», no dizer pitoresco de João Miguel Tavares, que já foi ‘estrela’ num 10 de Junho). Quanto à oposição, cala e consente. Não existe. Nem à esquerda, nem à direita.
Antes de Costa chegar a primeiro-ministro nunca se vira nada semelhante, o que abona a sua lendária ‘habilidade tática’. 

Cavaco, por exemplo, ‘viu-se grego’ com Mário Soares, que não lhe dava tréguas, com as demolidoras ‘presidências abertas’; Durão Barroso durou pouco em S. Bento, que trocou por Bruxelas; e Santana Lopes foi ‘apeado’ sumariamente por Jorge Sampaio; já Sócrates cultivava ‘ódios de estimação’ contra Cavaco Presidente, e mesmo Passos Coelho nunca acertou o passo com Belém. 
Agora, entre Presidente e primeiro ministro existe uma ‘santa aliança’, a que se ‘colou’, pressuroso, Ferro Rodrigues – não fosse ficar fora do retrato –, o que ilustra bem o ‘estado a que isto chegou’. 

E é esse o perigo. Sem oposição, e sendo escassas as alternativas verdadeiramente independentes, faltam os contrapesos ao regime, enquanto progride a competição pela popularidade, num quadro adverso. Veja-se, por exemplo, Fernando Medina, que, percebendo o alastrar da ameaça, já veio a terreiro ‘tirar o cavalinho da chuva’... 
A polémica em que o autarca de Lisboa se envolveu com o ‘confrade’ de Ovar – um dos principais artífices da eleição de Rui Rio no PSD –, é um sinal do que pode estar na forja, quando o arsenal de artifícios já não for suficiente para encobrir o desnorte.

Medina não ‘mexeu um dedo’ que se saiba, para criticar, previamente, a manifestação ‘antirracista’, mas soube agora dizer na TVI que foi «um disparate». Correu a mostrar-se em Belém, na provinciana ‘cimeira’ por causa da vinda dos Champions para Lisboa, mas logo se distanciou, às arrecuas, preconizando que os jogos se façam ‘à porta fechada’.
Quando Medina admite que «não houve contenção nas cadeias de transmissão» do vírus, está a reconhecer o óbvio. O problema é que ele não é um mero espetador, mas um ativo político com direito a ‘tribuna às ordens’ nas televisões. Faltou-lhe a coragem para denunciar o que correu mal na altura própria. 

Com o país a registar uma das mais elevadas taxas de infetados na Europa por 100 mil habitantes, seria expectável que a prudência aconselhasse uma narrativa mais contida. Mas não. Somam-se as contradições, pacóvias e populistas, inundando os telejornais, acríticos e reverentes, quando as esquerdas ocupam o poder. 

A quarentena fez mal a muita gente. E a fatura começa a estar à vista, mesmo que venha o dinheiro prometido pela Europa. Escreveu o eurodeputado social-democrata, Paulo Rangel, que «em vez da vacina, levámos com uma anestesia». Foi certeiro. 

Haja consciência de que o país caminha para uma recessão severa, e não adianta banir a palavra ‘austeridade’ do dicionário socialista.

Se o Governo falhar, todos teremos a perder. E não será com outra ‘encenação’ fronteiriça de ‘corta-fitas’ para a fotografia que se engana a realidade. E o desnorte.