Internacional

Estados que reabriram mais depressa devastados pela covid-19

O epicentro do surto nos EUA desloca-se do estado de Nova Iorque para o sul, em particular a Florida.

Durante semanas, ao vermos imagens de bares reabertos no Texas, multidões sem máscara a regressar a casinos em Las Vegas, praias abertas na Florida, poderíamos pensar que estes estados tinham a pandemia sob controlo. Não era o caso, como mostra o brutal pico de contágios de covid-19 nos Estados Unidos, centrado em estados que estiveram entre os primeiros a reabrir, da Carolina do Sul ao Alabama, passando por Texas, Nevada e Idaho. O epicentro do surto desloca-se do noroeste do país, em particular do estado de Nova Iorque, para a Florida, no sul. Não é de espantar que 12 estados já tenham parado os seus planos de reabertura ou voltado atrás.

O cenário é muito diferente de há alguns meses, quando os governadores que reabriram estados foram saudados como heróis por muitos, incluindo o próprio Presidente dos EUA, Donald Trump - para desespero dos profissionais de saúde.

Um dos casos mais notórios foi o do governador Ron DeSantis, da Florida, que manteve as praias abertas durante as férias da Páscoa, quando estudantes de todo o país festejam na região. As imagens mostravam que o respeito pelo isolamento social era uma raridade e que os jovens arriscavam voltar infetados aos seus estados. Aliás, um estudo das universidades de Ball State e Vanderbilt verificou que os casos de covid-19 aumentaram desproporcionalmente nas regiões onde havia mais estudantes que estiveram na Florida.

“Muitos podem não ter tido nenhum sintoma”, explicou Glenn Fennelly, diretor de pediatria da faculdade médica da Universidade de Rutgers, à ABC, salientando que isso pode ter aumentado a probabilidade de transmissão. Como disse, na altura, um estudante de férias na Florida, numa reportagem da CBS que se tornou viral: “Se apanhar corona, apanhei corona. Afinal de contas, não vou deixar que isso me impeça de festejar”.

Apesar das críticas, a Florida conseguiu manter o seu surto relativamente controlado - até agora. A 20 de maio, a revista conservadora National Review chegou até a publicar a manchete: “Até onde é que Ron DeSantis tem de ir para receber um pedido de desculpas?”. Contudo, só no sábado, o estado registou quase 10 mil infeções por covid-19, rivalizando com os números de Nova Iorque durante o seu pico, em abril - a culpa é do excesso de testes, defende o governador.

 

Arrependimento Ao contrário de DeSantis, outros governadores admitiram alguns erros. Até no conservador Texas, o segundo estado mais populoso do país, o governador Greg Abbott, que mantém que o seu estado “continua aberto aos negócios”, admitiu ao canal KVIA: “Se pudesse voltar atrás e refazer algo, provavelmente desaceleraria a abertura dos bares, depois de ver quão depressa o coronavírus se espalha nesse contexto”.

Entretanto, a agência reguladora da venda de álcool no Texas já retirou a licença a 12 bares que violaram as regras ao darem gigantescas festas, com os estabelecimentos cheios, como mostraram vários vídeos divulgados no Twitter. Abbott acabou por ser obrigado a ordenar aos restaurantes para funcionarem a 50% da capacidade e a fechar os bares de novo - já a Florida optou por suspender todo o consumo de álcool em bares.

Entretanto, os sistemas de saúde texanos começam a entrar em rutura: quatro condados tiveram de suspender todas as cirurgias não urgentes esta semana e os cuidados intensivos do hospital de Houston estavam a 97% da sua capacidade.

 

Gosto pelo risco Em todo o globo, à exceção do Brasil de Jair Bolsonaro, talvez tenha sido nos EUA que houve mais contestação a medidas básicas de combate ao coronavírus como o isolamento social, muito devido ao impacto económico. Mas até a mera obrigação de uso de máscara continua a levantar polémica, sendo vista como um atropelo aos direitos individuais, apesar de o país ter ultrapassado os 2,6 milhões de infeções registadas de covid-19, com mais de 128 mil mortes.

Agora, até no Nevada, que teve um pico nos casos desde que reabriu os seus hotéis e casinos, no início de junho, tornou-se obrigatória a utilização de máscaras em locais públicos fechados. No famoso Caesars, em Las Vegas, a operadora tentara incentivar o uso de máscaras oferecendo rondas gratuitas nas slot machines a quem as usasse: a medida não teve sucesso, tendo em conta as imagens de multidões de pessoas sem máscara no estabelecimento.

“As pessoas vão aos casinos e jogam porque desfrutam do risco... Os jogadores não vão deixar que esta lei os pare”, considerou Chris Frusci, de Dallas, que visitou Las Vegas há duas semanas e viu muito poucas máscaras. “É agradável escapar à realidade e sentir que não há uma pandemia”, considerou o jogador, em declarações ao Las Vegas Review-Journal.