No meio de nós

Uma agenda que não é a nossa!

Porque é que estamos tão preocupados com o casamento dos padres? Numa altura em que já ninguém quer casar, agora querem casar os padres…

D. José Ornelas foi eleito entre os bispos de Portugal como presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. Não seria previsível do ponto de vista mundano que um bispo de uma diocese limítrofe para um cargo central na situação da Igreja que vive em Portugal.

Na semana que antecedeu a sua eleição foram feitas várias previsões. O mais natural seria o Cardeal António Marto, bispo da diocese de Leiria Fátima, ter sido eleito para Presidente daquele organismo. Depois poder-se-ia pensar, por exemplo, em descentralizar para o Porto aquele cargo e eleger D. Manuel Linda. Contudo, a eleição recaiu sobre um biblista e bispo de uma diocese tão pobre, como é o caso de Setúbal.

D. José Ornelas é um homem notável na sua formação, um biblista enorme. Foi superior geral da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, à qual pertence. Foi, também, professor da Universidade Católica Portuguesa, na Faculdade de Teologia.

Ao longo desta semana têm saído várias notícias, entrevistas, comentários sobre este acontecimento. Reparei, no entanto, que as declarações que foram levadas para o título são mais do mesmo: o fim do celibato dos padres.

É curioso que entre tantas coisas que foram ditas estes sejam os títulos das entrevistas e das notícias publicadas. Acha curioso, porque esta não é uma agenda da Igreja Católica e, se o fosse, não o deveria ser.

Porque se preocupa tanto o mundo com o fim do celibato dos padres? Porque é que estamos tão preocupados com o casamento dos padres? Numa altura em que já ninguém quer casar, agora querem casar os padres…

Porque é que acho que o fim do celibato não é, nem deveria ser, tema na agenda da Igreja Católica em Portugal e no mundo? A resposta é muito simples: porque nos preocupamos em ter padres casados em vez de procurarmos ter padres santos. Isso é que deveríamos exigir! Padres que vivam no meio das suas ovelhas, dedicados àqueles que lhe são confiados.

As agendas que são impostas à Igreja no mundo contemporâneo devem ser ouvidas e devem ser discernidas, sem dúvida. Não sou daqueles que pensa que devamos avançar orgulhosamente sós, fechados nas nossas doutrinas imóveis, sem dar ouvidos aos gritos da humanidade.

Aquilo que me parece é que a introdução deste tipo de agendas nos desvia do essencial: ouvir os gritos da humanidade!

Sim! Quando olhamos para a missão de Jesus, não temos a menor dúvida de qual é a sua prioridade: dar vista aos cegos, curar os enfermos, anunciar a boa nova aos pobres, ressuscitar os mortos, expulsar os demónios.

A missão da Igreja Católica fará todo o sentido se continuar a missão de Jesus Cristo! A Igreja existe para iluminar os que vivem cegos, curar os enfermos, anunciar a boa nova, ressuscitar tantos homens que vivem mortos e expulsar os demónios que atormentam o homem.

A nossa agenda deveria ser esta!

Acredito profundamente que um biblista, como é D. José Ornelas, ajudará a Igreja em Portugal a recentrar-se nesta missão pelo exercício da pregação da Palavra e pela celebração dos sacramentos – em especial da Confissão e da Eucaristia.

É que corremos o risco de ir atrás de tantas outras agendas e prescindamos na nossa própria missão: ouvir o grito da multidão e libertar os que vivem angustiados, cegos, surdos e mortos.