Opiniao

Maus chefes, piores líderes

O problema é que a governação que transforma exige tudo aquilo que Portugal não tem tido. Continua a faltar-nos uma visão de longo prazo, saber para onde queremos ir e como nos queremos posicionar; e uma estratégia de desenvolvimento

por Francisco Rocha Gonçalves
Vice-Presidente da Câmara Municipal de Oeiras

 

Diz-se que os grandes líderes governam com o livro de história na mão, o que é verdade, mas também têm de o fazer em posse do mapa onde traçaram o caminho para a comunidade, e munidos de bússola, para que o consigam seguir sem desvios significativos. O conhecimento do passado serve, essencialmente, como guia, mas a construção do futuro só se faz com a transformação da realidade.

O problema é que a governação que transforma exige tudo aquilo que Portugal não tem tido. Continua a faltar-nos uma visão de longo prazo, saber para onde queremos ir e como nos queremos posicionar; e uma estratégia de desenvolvimento, ou seja, o que temos de fazer para alcançar os objetivos que nos propusemos, e, já agora, como queremos fazê-lo em função das nossas valências.

Fernando Medina chamou a nossa atenção para o problema da existência de “maus chefes”, com a qual não poderia estar mais de acordo, porque precisamos de bons chefes. Agora, na crítica que fez, no âmbito do combate à pandemia de covid-19, esclareceu, depois, que o dedo que apontava era “específica e circunscritamente” às chefias regionais das autoridades da saúde na área da grande Lisboa. Aqui, já discordamos. Não se percebe como se condena as estruturas intermédias, que continuam a sê-lo, sem consequências, absolvendo-se as chefias de topo, que continuam a sê-lo, sem consequências, apesar do erro de avaliação e da inação que resultam da primeira crítica, concedendo que do topo emanam todas as diretrizes certas e coerentes para solucionar esta determinada situação.

O facto é que temos necessidade absoluta de boas chefias, intermédias, também mas, principalmente de topo, no governo do País, das cidades e das empresas. Além de chefias, em todas estas dimensões, precisamos de liderança, de quem inspire e influencie comportamentos de modo a que os resultados sejam alcançados, e que o sejam da melhor forma possível.

No País, não temos projeto de desenvolvimento nacional que se possa designar, tanto que quando surge uma oportunidade que pode ser histórica de termos acesso a recursos significativos, apressamo-nos a definir para onde caminhamos, porque até agora não sabemos. Navegamos sempre à vista. Podemos até saber para que lado sopra o vento, mas raras vezes sabemos para onde queremos ir.

Nas cidades, a falta de um modelo de governação equilibrado do território levou e manteve a macrocefalia populacional no litoral e em duas áreas metropolitanas, sem poderes regionais, gerando problemas únicos, que nos retiram competitividade com os nossos concorrentes internacionais,

Nas empresas, as implosões que presenciámos no período de profunda crise financeira, e depois económica, de 2009 e dos anos seguintes, são exemplo desta mesma situação, assim como o é a incapacidade de reconhecer o que são sectores estratégicos e de como a comunidade se pode proteger e garantir que mantém a sua capacidade de decisão face a entidades terceiras.

Falta-nos a capacidade de conseguir olhar um pouco mais longe do que a gestão do curto prazo, do final do mês, do resultado da sondagem ou a da duração do mandato. Claro que, para responder a isto, as chefias fracas são um problema, mas outro, de muito maior dimensão, são piores líderes que vamos tendo.