Política a Sério

Todos ralham e ninguém tem razão

A irritação de Medina terá uma razão de ser mais prosaica: a grande fonte de riqueza de Lisboa é neste momento o turismo, e o prolongamento da pandemia na região de Lisboa está a deitar por terra a sua retoma.

Discordando muitas vezes de Fernando Medina, tenho apreciado de um modo geral as suas intervenções desde o início da pandemia.

São sensatas, ponderadas e vão à raiz do problema – ou seja, é preciso não esquecer a economia, sob o risco de não morrermos da doença mas morrermos da cura.

A vida não pode parar por causa do coronavírus.

A esta luz se devem analisar as suas declarações desta semana, invulgarmente agressivas, sobre o modo como tem sido conduzida ultimamente em Lisboa a luta contra a doença.

Ao dizer que o sistema não está a responder – e que, quando assim é, torna-se urgente mudar as chefias –, Fernando Medina queria atingir quem?

Quem seria o principal destinatário das críticas?

Seriam os médicos, seria Graça Freitas, seria a ministra da Saúde, seria o próprio primeiro-ministro?

Houve quem sugerisse que ele estaria a preparar o terreno para António Costa demitir Marta Temido.

E a sugestão tinha alguma razão de ser, pois, no caso recente da saída de Centeno, houve alguns socialistas, como Marcos Perestrelo, que se prestaram ao papel de começar a atacá-lo, abrindo caminho à sua demissão e facilitando a vida a António Costa.

Nesta perspetiva, Medina estaria agora a fazer a mesma figura de papagaio do primeiro-ministro.

Ora, não creio que assim seja.
  Julgo que, neste momento, Fernando Medina já corre em pista própria, e não se prestará a odiosos papeis que não o beneficiariam nada.

A irritação de Medina terá uma razão de ser mais prosaica: a grande fonte de riqueza de Lisboa é neste momento o turismo, e o prolongamento da pandemia na região de Lisboa está a deitar por terra a sua retoma.

Alguns países, como o Reino Unido, vetaram a capital portuguesa como destino dos turistas ingleses, o que representará um enorme rombo.

Portugal passou de país que tinha lidado exemplarmente bem com a pandemia a país que não se recomenda do ponto de vista sanitário.

E esta situação está a desesperar Medina – levando-o a disparar em todas as direções.

Portanto, ele não disse o que disse por cálculo político nem para fazer fretes a ninguém: fê-lo porque, como presidente da Câmara de Lisboa, está a ver a vida a andar para trás.

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