Viver para Contar

O que matou Pedro Lima?

As estrelas da TV têm uma enorme pressão sobre si próprias: a imagem exterior que precisam de defender. Se a deixarem degradar-se, perdem o apoio do público, perdem os fãs, e acabam por perder o emprego. Foi esta pressão que Pedro Lima não aguentou.

Muita gente já escreveu sobre a morte do ator Pedro Lima, e disseram-se coisas acertadas. Foi uma morte que interpelou toda a gente, por variadíssimas razões: porque se tratava de uma pessoa muito conhecida, porque tinha uma família estável, porque tinha filhos pequenos – e, apesar de tudo isto, que espelhava um cenário de felicidade, se matou. E matou de uma forma ao mesmo tempo brutal e teatral: atirando-se de um penhasco para o mar, depois de se flagelar. Um horror!
Li alguns textos e ouvi algumas coisas que se disseram sobre este tristíssimo episódio, mas não vi escrita nem ouvi dita uma coisa que pode ser a chave daquilo que levou o ator a suicidar-se.
É claro que não terá sido uma só causa a determinar o seu ato. A depressão de que o ator sofria, potenciada pelo confinamento devido à pandemia, foi o pano de fundo. Mas nestas situações há muitas vezes um facto que funciona como detonador da decisão. Um facto que assume mais importância do que os outros, que se eleva acima dos outros e se apresenta como uma montanha intransponível. E perante a impossibilidade de a ultrapassar, a pessoa desiste e decide pôr fim à vida.
Ora, no caso de Pedro Lima, qual poderá ter sido essa razão?
As pessoas públicas, mas em particular as estrelas da TV, têm uma enorme pressão sobre si próprias: a imagem exterior que precisam de defender. Se a deixarem degradar-se, deteriorar-se, perdem o apoio do público, perdem os fãs, e acabam por perder o emprego. Sem remissão. 
Por isso, defendem a sua imagem com unhas e dentes. A ‘imagem física’ e a ‘imagem psicológica’ que projetam. 
No plano físico, vemos o que as atrizes (e cada vez mais atores) fazem para manter a mocidade e a beleza: esticam a pele, aspiram as gorduras em certos sítios do corpo, põem silicone noutros, submetem-se a sucessivas operações plásticas. Às vezes já nem as reconhecemos, de tanto quererem embelezar-se e manterem-se jovens.

Mas há também a ‘imagem psicológica’. Isto é, além de serem jovens e belos, querem mostrar-se felizes, alegres, prósperos, de bem com a vida. Pedro Lima era, a este nível, um caso paradigmático: transparecia equilíbrio e felicidade. Tinha sempre um sorriso na boca. Em poucas fotos o vimos sério ou acabrunhado. Parecia sempre tranquilo, sereno. E, no entanto, sabemos hoje que isso muitas vezes não corresponderia ao que lhe ia na alma. Seria uma máscara. Ele tinha muitos momentos de angústia, de infelicidade, de ansiedade, de tristeza, que não transparecia. E por isso, necessitava de fazer um esforço imenso para se apresentar sempre com aquele sorriso. 
Ele, que era um homem torturado, gostava de ser visto como um homem feliz. E isso cansa.

É difícil o papel que os atores (e outras figuras públicas) têm de representar na vida real para conservarem o estatuto, os seguidores, os empregos e os salários. 
E Pedro Lima estava à beira de não poder continuar a representá-lo. Tinha-se metido a construir uma moradia que dizia ser o seu «sonho», mas começava a ter dificuldades em pagar ao empreiteiro. E se ficasse desempregado dentro de uns meses, como tudo indicava – pois só tinha renovado o contrato até ao fim da novela que estava a gravar e não por dois anos, como era habitual –, o que iria fazer? Mais dia, menos dia, a sua desventura seria exposta ao país inteiro. Cruelmente, as suas dificuldades financeiras, a sua depressão, seriam objeto das capas das revistas do coração. A sua vida ficaria exposta. Todos veriam que o seu sorriso era postiço. 

Foi esta a principal razão, a meu ver, para Pedro Lima fazer o que fez.
O confronto com a realidade, a queda iminente da máscara que arranjara para se proteger, seria uma ideia para ele insuportável.
Já se via a ser confrontado com a expressão do público a olhar para ele com piedade, com os admiradores a lastimarem a sua sorte, com as promessas de ajuda por caridade.
E o seu orgulho não o permitiu.
Ao acabar com a vida, Pedro Lima acabou com tudo: com a realidade e com a ficção. Com aquilo que ele era de facto, com os problemas que o torturavam e cuidadosamente escondia, e com a sua imagem pública, cujo equilíbrio e o sorriso falsos eram invejados por muitos. 
Apesar de tudo, com o seu ato desesperado ele conseguiu que essa imagem  permanecesse na memória do país. É assim, calmo e sorridente, que o recordaremos para sempre.