Pátio das Cantigas

O caldo entornado…

Ao não assumir a responsabilidade pelo comportamento errático do Governo pós-confinamento, Costa admoestou a ministra da Saúde perante um estupefacto auditório.

As reuniões magnas do Infarmed, com a participação das mais altas figuras do Estado e de um séquito diversificado, passaram a ser uma rotina quinzenal, desde que o coronavírus assentou arraiais, com o país assustado entre o estado de emergência, de calamidade ou de contingência.
Os especialistas explicam o melhor que sabem nas suas áreas de competência e os políticos ouvem, comparam as conclusões com os resultados no terreno, e, no final, partilham umas ‘migalhas’ com os jornalistas, filtrando o que convém.
Há jornalistas ‘pé de microfone’ que se retiram sem uma pergunta ou uma dúvida e outros, menos conformados, que não se contentam com tão pouco e procuram saber mais sobre o que foi tratado ou aconteceu no conclave.
No último encontro do Infarmed, o ‘verniz estalou’, e, a fazer fé na revista Visão, António Costa ‘perdeu as estribeiras’ e exibiu o seu lendário destempero, conhecido desde os tempos em que as suas irritações rivalizavam nos Paços do Concelho com as do antecessor, João Soares.
Incapaz de assumir a menor responsabilidade pelo comportamento errático do Governo pós-confinamento – que tem contribuído para o crescimento do numero de infetados na região de Lisboa e Vale do Tejo –, o primeiro ministro não foi de meias medidas, admoestou a ministra da Saúde perante um estupefacto auditório, e antecipou-se mesmo ao Presidente da República, dando o encontro por terminado e ‘adeusinho’ até ao próximo.

A apregoada paz institucional estremeceu. E não foi bonito de se ver. Ao tempo de Cavaco Presidente, sabia-se como Sócrates ‘driblava’ a agenda de Belém, com pouco respeito pelo rigor dos horários das audiências, entre outras ‘rebeldias’, para mostrar ‘quem mandava’.
Com Marcelo, o mundo partilhado com o seu antigo aluno parecia ‘cor-de-rosa’, até ao intempestivo episódio do Infarmed, que a ministra Marta Temido acatou sem se demitir, limitando-se a confessar, numa roda de Imprensa, que «se o primeiro-ministro puxou as orelhas à ministra da Saúde, teria certamente razão». Um mimo. 
O episódio é em si mesmo revelador e o raspanete, não desmentido, um mau sinal, e mais uma demonstração de que António Costa nunca está disponível para responder pelo que corre mal, sejam incêndios florestais, pandemias ou o assalto a Tancos, uma ‘fava’ que saiu ao ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, que vai sentar-se no banco dos réus, sujeito de um libelo que não é meigo. 
É notável, aliás, a declaração feita a esse respeito pelo primeiro ministro que, novamente convidado de outro entertainer do regime, se aliviou, entre sorrisos, desta forma espantosa: «Tenho de reconhecer que é um argumento muito original: o crime verdadeiramente grave não foi o roubo das armas, o crime verdadeiramente grave foi recuperar as armas».
É certo que estava num programa, supostamente, de humor. Mas se António Costa quis ter piada, foi infeliz e saiu-lhe mal. 
De facto, tão importante como o roubo de armas e munições de uma unidade dita de elite – que deixou boquiaberta muita gente, ao perceber-se a falta de segurança e a degradação daquelas instalações militares –, foi a novela rocambolesca do ‘achamento’ do material roubado (ou parte dele, ainda ninguém sabe ao certo…), envolvendo a Judiciária Militar e a GNR, além do gabinete do ex-ministro Azeredo Lopes.

Para o juiz de instrução, Carlos Alexandre, a «conduta» de Azeredo «é extremamente grave, uma vez que o mesmo violou a fidelidade reclamada pela sua qualidade de ministro da Defesa Nacional».
A delicadeza do processo deveria ter aconselhado uma atitude distanciada a António Costa, até por envolver um seu ex-ministro, num caso invulgar no qual ele próprio depôs por escrito. 
Porém, a sua intervenção ‘pisou o risco’ ao ironizar sobre o trabalho da Justiça, desde o Ministério Público que investigou, ao juiz de instrução que encontrou matéria bastante para enviar a julgamento todos os arguidos, deixando Azeredo Lopes ‘em maus lençóis’. 
Quando um dia foi questionado sobre o processo de Sócrates, Costa soube responder que «o nosso sistema de justiça funciona», e que «se essas ilegalidades se vierem a confirmar, serão certamente uma desonra para a nossa democracia». Sabe-se o que aconteceu depois e já não falta muito para se conhecer o veredicto do juiz Ivo Rosa. Porque mudou de orientação com Tancos e Azeredo?

Com o desconfinamento, o chefe do Governo está ‘a perder o pé’. Talvez esperasse que a vinda dos Champions servisse para ‘animar a malta’. Mas o agravamento de infetados com a covid-19 ‘trocou-lhe as voltas’ e deixou-o, visivelmente, à beira de ‘um ataque de nervos’. 
O ‘caldo está a ficar entornado’. E já se viu que Costa quis «deixar claro» no Infarmed que, se algo falhar, a culpa não será sua. Haja quem perceba o que nos espera.