Falar baixinho

Uma sociedade opressora

Estas ondas extremistas que se insurgem contra tudo e todos – até os mortos – que possam fazer soar alguma coisa que cheire a discriminação, acabam por dividir ainda mais a sociedade e incitar à zanga e à diferença.

Um dos valores que tento passar aos meus filhos é o da liberdade. De escolha, de expressão e de atitude. Embora infelizmente ainda tenho de os limitar em várias situações, aprecio que façam as suas explorações livremente, que possam ter a sua forma de pensar e de agir e assumir as suas ideias e atos sem receio do que os outros pensam.
Até há algum tempo acreditava que era nesse sentido que a sociedade caminhava. Já teríamos ultrapassado o período de repressão e censura que teria levado finalmente à liberdade de expressão. No entanto, ultimamente temos assistido a um retrocesso assustador destas conquistas.

Estas ondas extremistas que se insurgem contra tudo e todos – até os mortos – que possam fazer soar alguma coisa que cheire a discriminação, acabam por dividir ainda mais a sociedade e incitar à zanga e à diferença.
As verdadeiras mudanças de mentalidade e de comportamento não se fazem com revoltas agressivas que transpiram ódio. Os tempos e mentalidades vão evoluindo e as diferenças vão sendo aceites e integradas numa sociedade necessariamente heterogénea. Parece-me que este seria o sentido natural e sadio da história.
Desde pequena que sinto ter um apurado sentido de justiça, que sempre me levou a insurgir-me contra qualquer atitude discriminatória, seja de que âmbito for. Ao mesmo tempo tive a sorte e o prazer de conhecer e relacionar-me com pessoas de toda a espécie e feitio.

Pelo contrário, parece-me que muitas vezes não é só o sentido de justiça e de solidariedade que move estes grupos, mas a sua necessidade de se insurgirem contra os outros, de terem causas em que acreditar, que possam defender. Assumindo-as de uma forma tão extrema que se tornam irascíveis. No caso do racismo, por exemplo, faz algum sentido tentar apagar a história? Atirar estátuas abaixo? Revoltarmo-nos contra os mortos? Pegar fogo a caixotes do lixo, partir montras, espalhar o terror pelas ruas? E nós, neste país pacato, que de racista tem pouco, vamos atrás das modas. Qual a percentagem de pessoas racistas em Portugal? E será com manifestações e atitudes agressivas destas que irão deixar de o ser? E de que forma são discriminadas e agredidas as pessoas que pensam de forma diferente? Em relação a estas não existe discriminação?

Temos de acordar desta onda primária que roça a insanidade, deste retrocesso em que ninguém pode falar livremente se não for para dizer o que é esperado e desejado, desta censura constante.
Este fim de semana soube que há um plano para descolonizar algumas plantas vindas das colónias. O que é isto senão uma cretinice, uma imbecilidade? Aceitemos e aprendamos com a história e façamos melhor se conseguirmos. Não é certamente destruindo o que foi feito ou ficando preso e obcecado com o passado que se evolui.

É que aqueles que proclamam a liberdade e igualdade são os mesmos que se insurgem e massacram quem pensa de modo diferente. E a opressão para estes é tão forte e agressiva que os leva a abrir mão das suas ideias para ir ao encontro do que acham ser mais aceite. Que alguns grupos de pessoas defendam os seus ideais de forma exaltada, eu acho normal. Mas que outras se sintam obrigadas a pensar em consonância, prescindindo assim de assumir as suas convicções, é que me parece deveras preocupante.