Opiniao

Covid-19 - O fim do setor audiovisual na Europa

Alertados para as potenciais consequências que o coronavírus pode ter na indústria, um grupo de membros do Parlamento Europeu e peritos em políticas sobre os meios de comunicação assinaram uma carta aberta em finais de março, pedindo apoio urgente da Comissão Europeia para contornar aquilo que afirmam tratar-se de um desafio sem paralelo. Os signatários retomam a ideia da anterior crise da dívida soberana para perguntar se, como no caso dos bancos, também haverá coragem para salvar os media e os setores culturais e criativos de uma morte anunciada.

Todos sabemos que o atual estado de pânico geral em torno da pandemia de covid-19 está a causar efeitos em todas as divisões da sociedade. Com o passar do tempo, torna-se cada vez mais claro que um dos setores que sofrerá mais com as consequências da pandemia é o das chamadas indústrias criativas e, em particular, o setor da produção de cinema e televisão.

Na maioria dos países europeus, a produção parou totalmente, tornando ainda mais frágil a situação de muitos trabalhadores num setor já marcado pela precariedade do lado dos trabalhadores e a falta de escala do lado das empresas.

Esta crise surge num contexto onde a nova diretiva AVMSD (Diretiva de Serviços de Meios Audiovisuais) pretende reforçar a competitividade da indústria audiovisual europeia e, assim, promover a diversidade cultural e o património na Europa. Para tal, a Diretiva exige que as empresas de radiodifusão reservem a maior parte do seu tempo de transmissão para obras europeias e prevê que os serviços de comunicação audiovisuais on demand promovam a produção e o acesso a obras europeias. A Diretiva representa uma tentativa desesperada de minimizar as consequências dos processos de convergência em curso com a consequente emergência de monopólios que as grandes plataformas SVOD representam.

Se já se podiam vislumbrar sinais de problemas para produtores e distribuidores locais e regionais devido a estas tendências, a pandemia acelerou rapidamente o processo, criando uma tempestade perfeita que ameaça engolir o setor audiovisual europeu. As notícias mais recentes mostram que o processo de transposição da diretiva para o contexto local foi interrompido na maioria dos países europeus e enquanto isso o monopólio dos GAFAN (Google, Amazon, Facebook, Apple, Netflix) tornou-se realidade: os conteúdos produzidos localmente estão a perder terreno todos os dias.

Alertados para as potenciais consequências que o coronavírus pode ter na indústria, um grupo de membros do Parlamento Europeu e peritos em políticas sobre os meios de comunicação assinaram uma carta aberta em finais de março, pedindo apoio urgente da Comissão Europeia para contornar aquilo que afirmam tratar-se de um desafio sem paralelo. Os signatários retomam a ideia da anterior crise da dívida soberana para perguntar se, como no caso dos bancos, também haverá coragem para salvar os media e os setores culturais e criativos de uma morte anunciada. Por isso é preciso que sejam injetados fundos no setor de diversas formas mais do que através da aquisição de espaço publicitário pelos governos. Quem me conhece sabe que não sou grande fã de intervenção estatal, e estou consciente das lições que a história nos ensina sobre isso. Mas neste caso específico, penso que estamos a chegar a uma etapa em que ou é isso ou seremos testemunhas da morte do setor audiovisual europeu.

 

Diretor departamento Cinema e Artes dos Media,Universidade Lusófona
Presidente da Associação Europeia de Escolas de Cinema