Economia

"O turismo está a viver um dos piores momentos da sua história"

O presidente da Confederação do Turismo Português lembra que o Reino Unido é o nosso principal mercado emissor de turistas e se vão ter de cumprir quarentena acredita que irão optar por outros destinos. No entender de Francisco Calheiros, não existem razões para Portugal não estar incluído nos ‘corredores aéreos’, a não ser por questões políticas. Quanto à construção do futuro aeroporto, o responsável não abre mão e garante que não pode ser adiado. E dá uma justificação: esta infraestrutura ‘não se faz num dia’.

Que análise faz do setor de turismo?

O turismo está a viver um dos piores momentos da sua história a nível global e nacional. Fomos das primeiras atividades a sentir o impacto da pandemia. Em Portugal, os cancelamentos começaram a surgir desde o primeiro momento, ainda antes da declaração do primeiro estado de emergência em Portugal. No mês de março, registámos uma queda de dormidas na ordem de 58,7% e de hóspedes de -62,6% face ao mês homólogo do ano passado, e no mês de abril o número de dormidas registou uma quebra de 97% e o número de hóspedes caiu 97,4%. De acordo com os últimos dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), em maio o número de desempregados inscritos nos centros de emprego foi de mais 34% face ao mês do ano passado, com uma subida de 89,3% no alojamento, restauração e similares. Todos estes números são muito preocupantes e, ainda assim, não traduzem toda a atividade turística, como por exemplo, as agências de viagens, a animação turística, o golfe, companhias aéreas, rent-a-car, etc. No total, o impacto da pandemia no turismo é enorme, o que nos deixa muito apreensivos.

Que medidas podem ser implementadas para estimular este setor?

Nesta fase, é urgente implementar medidas de capitalização. Essa é a nossa grande batalha de momento. Além do Plano de Retoma do Turismo Português que incluiu um conjunto total de 99 medidas e de 12 compromissos, entregámos recentemente ao Governo um documento focado em propostas de capitalização. As medidas que foram lançadas estão esgotadas e ainda há muitas empresas que necessitam urgentemente de apoio. Até agora, estiveram sempre em cima da mesa medidas de empréstimos e prolongamento de responsabilidades das empresas, exceto o layoff simplificado, e temos de passar a medidas de capital, como linhas de capitalização a fundo perdido para o turismo e o ressurgimento do fundo de turismo de capital de risco.

Como vê a decisão do Reino Unido ao defender a quarentena para quem vier passar férias a Portugal?

A decisão do Governo britânico foi uma surpresa muito desagradável, que vai prejudicar severamente o turismo português. O Reino Unido é o nosso principal mercado emissor de turistas e se estes vão ter o transtorno de cumprir quarentena quando regressarem de Portugal, certamente que irão optar por outros destinos. Ter apenas como base da decisão o número de casos infetados por mil habitantes é um absurdo. Portugal tem demonstrado capacidade para lidar com a pandemia desde o início e temos tido uma boa resposta dos nossos serviços de saúde. Lançámos o selo Clean & Safe que identifica estabelecimentos turísticos que cumprem com as condições sanitárias decretadas pelas autoridades de Saúde, projeto pioneiro na Europa que visa garantir a confiança de todos os visitantes. Criámos a plataforma Clean & Safe que permite que os próprios turistas classifiquem os empreendimentos no que diz respeito ao cumprimento das condições sanitárias. E fomos o primeiro país na Europa a ser distinguido com o selo de ‘TravelSafe’ por parte do WTTC (World Travel & TourismCouncil). Não existem razões para Portugal não estar incluído nos ‘corredores aéreos’. A existirem, serão políticas.

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