Opiniao

A brincar, a brincar, com as verdades me enganas

Milhões distribuídos às empresas? Será assim? Não terão ficado muitos desses milhões ‘parados’ nos bancos, à espera de clientes de bom risco, com a prestação de garantias reais? 

Trata-se, como todos sabemos, de um ditado popular que significa que, se alguém diz uma verdade em tom de brincadeira, é bem provável que não seja levado a sério pelos outros. Ao contrário, se alguém mente mas o faz com ar sério, convicto, é expectável que todos acreditem.

Vem isto a propósito de quase tudo o que tem sido dito, por diversas entidades oficiais, desde o início deste ‘período negro’ que atravessamos, tanto no plano da saúde como no da economia (igualmente relevante, a dimensão social será tema para depois). Senão, vejamos:

Recordam-se dos dias em que a DGS, na pessoa da sua diretora-geral, referia que o vírus não representava qualquer perigo para a saúde pública, que não era transmissível entre humanos, que não havia problema de espécie alguma da frequência de restaurantes chineses (de que era cliente habitual)? Desconhecimento, desejo de não causar pânico, sim, mas verdade? Não.

E da designada ‘reserva estratégica’ de equipamentos de proteção individual, lembram-se? Como era constituída, para quantos dias chegaria, alguém algum dia soube? O país ficou tranquilo? Talvez. Verdade? Não.

 As máscaras e os testes eram elementos que davam falsa sensação de segurança, dizia-se com ar grave. Não era óbvio que as ditas máscaras protegeriam sempre mais do que se não as usássemos e que os testes, se dessem positivo, teriam logo permitido identificar situações de infeção, rastrear contactos e diminuir propagação? Não havia era nem umas nem outros. Diversos profissionais de saúde o confirmaram publicamente, enquanto amigos da esfera pessoal, médicos, nos pediam que lhes encontrássemos máscaras cirúrgicas, porque os hospitais em que trabalhavam não as tinham.

Fala-se da ‘realidade dos números’. Até Sua Excelência o Presidente da República veio há dias a terreiro afirmar que Portugal reporta a verdadeira situação sanitária, ao contrário do que sucede com outros países (referindo-se, de forma mais ou menos velada, a Espanha e à Grécia, por exemplo, nossos concorrentes diretos como mercados recetores de turismo). Será mesmo assim? Recordam-se do conteúdo dos boletins diários, das variações total e por concelhos? Mesmo tendo em consideração as limitações neles divulgadas, algum dia os números ‘quadraram’? Posso dizer-vos, taxativamente, que não!

Finalmente, alguém acredita em que é apenas o comboio das 6h36 da linha de Sintra aquele em que a lotação máxima fica prestes a ser atingida e que, só numa situação pontual, foi ultrapassada? Como é possível afirmá-lo, contrariando os testemunhos de quem utiliza diariamente a ligação?

Quanto ao plano económico:

Milhões distribuídos às empresas? Será assim? Não terão ficado muitos desses milhões ‘parados’ nos bancos, à espera de clientes de bom risco, idealmente com a prestação de garantias reais? Não é justamente por isso que se volta a falar na criação do Banco de Fomento?

A rapidez de decisão na atribuição e pagamento de subsídios às empresas, em especial às PME, tão propalada, foi cumprida? Conheço diversos casos em que as pessoas andaram ‘de Herodes para Pilatos’ à procura de informação, tendo por vezes sabido apenas que o processo se encontrava em apreciação e esperado meses até terem notícias. Este dado foi publicitado devidamente? Não, trata-se do sentido da conveniência…

Sobre as moratórias (sobre créditos concedidos ou contratos de arrendamento celebrados), medida acertada, será que empresas e particulares terão possibilidade de pagar o que devem nos períodos estipulados pela lei? Estando a procura tão diminuída, será expectável que, a partir duma determinada data, além do valor normal da prestação, os clientes consigam pagar o que ficou atrasado? Algum responsável deste país assumiu esta realidade? 

•  Para concluir: sabemos qual o acréscimo do número de falências de empresas em Portugal? Segundo estudo da Coface, haverá uma subida de apenas 5% no nosso país (contrastando com 25% a nível mundial). Tranquilizador? Sim. Verdade? Talvez… Seja por comodismo, seja pela burocracia associada ao processo, seja porque os serviços públicos estiveram encerrados – em regime de teletrabalho – bastante tempo, é possível que as PME nem se deem a esse trabalho, deixando-as formalmente vivas, ainda que na prática moribundas, à espera de outros tempos…

E, quando terminava este texto, fui notificado de que a taxa de desemprego continuava a descer em Portugal, cifrando-se em 5,5% em maio, menos 1,1 pontos em termos homólogos. Mentem ou não mentem, os números?