Viver para Contar

As crianças são racistas?

Querer à força que o racismo exista não contribui para acabar com ele: desperta-o e estimula-o cada vez mais.

Um jornalista que considero sério terminava uma crónica sobre o racismo com uma frase de uma criança, que era mais ou menos assim: «Nós, lá na escola, não gostamos de uns meninos castanhos». E daqui o jornalista concluía que há mesmo racismo em Portugal.

Ora, a conclusão não podia ser mais errada. O menino dizia que ele e os colegas não gostavam dos ‘castanhos’ como podia dizer que não gostavam dos gordos, ou dos albinos, ou de quaisquer outros meninos ‘diferentes’.

As crianças não são racistas. Mas são cruéis, impiedosas, e marginalizam com frequência aqueles que fogem ao padrão dominante. As crianças diferentes por qualquer razão – gordura, deficiência, atraso, timidez excessiva, etc. – são frequentemente vítimas da chacota dos colegas, de marginalização e mesmo de maus tratos. E, noutro plano, nas brincadeiras é vulgar os rapazes expulsarem as raparigas e vice-versa, consoante se trate de jogos ou entreténs mais associados a eles ou a elas.

Chamar racismo à marginalização dos meninos ‘castanhos’ é, pois, um abuso, com intenções ideológicas evidentes: provar que há racismo em Portugal.

Devo confessar que não percebo a insistência neste tema por parte de certos grupos e de certas forças políticas. A repetição da ideia de que a sociedade portuguesa é racista, de que o racismo está enraizado, de que a polícia tem intervenções racistas, só pode ter como consequência despertar demónios adormecidos.

Se eu digo constantemente a uma pessoa: «Tu és mau, tu tens maus instintos, a tua natureza é ruim, tu vais cometer malfeitorias», o que poderá esperar-se? Que esta pessoa se torne bondosa? Ou que a certa altura diga para si própria: «Já que tenho a fama, ao menos que tenha o proveito»?

Este constante matraquear da ideia de que os portugueses são racistas está a levar pessoas que nunca tinham sequer pensado no problema a ter, por reação, comportamentos racistas. Eu próprio o tenho testemunhado. Há quem fique de tal modo incomodado com estas campanhas, com os excessos dos antirracistas, com a sua propaganda, com os derrubes de estátuas, com as manifestações violentas, que comece a apoiar o campo contrário.

É tão evidente que o antirracismo radical pode fomentar o racismo que me interrogo se não será esse mesmo o seu objetivo. As organizações que dizem combater o racismo parecem desejar que haja racismo e racistas – para os poderem atacar e, desse modo, justificarem a sua existência. Afinal, sem racismo, os antirracistas seriam inúteis e teriam tendência a desaparecer…

Há um campo privilegiado para se fazerem estudos sobre o racismo – que é o mundo do futebol.

No futebol há uma percentagem muito grande de jogadores negros, pelo que já permite estudos estatísticos credíveis. Por outro lado, é um fenómeno que interessa a todas as classes, envolve sentimentos fortíssimos e movimenta milhões, pelo que funciona como um microcosmos social.

Ora, será interessante perceber até que ponto há discriminação no futebol em função da cor da pele.

Pergunta-se: os jogadores negros são, em média, mais mal pagos do que os brancos? Os jogadores negros são mais castigados com faltas pelos adversários do que os jogadores brancos? Os jogadores negros são julgados com mais severidade pelos árbitros do que os jogadores brancos? Há, percentualmente, mais cartões amarelos e vermelhos distribuídos a jogadores negros do que a jogadores brancos?

A resposta a estas perguntas – e a outras no mesmo sentido – permitiria por certo interessantes conclusões.

Antecipando-me a um eventual estudo, diria que, em Portugal, as respostas à maioria das questões, se não à totalidade, seriam negativas.

Claro que há o episódio de Marega. Mas aqui funcionou mais a rivalidade clubística do que o racismo. A prova é que os adeptos do Vitória que atacaram Marega eram os mesmos que uns anos antes o aplaudiam, quando ele jogava em Guimarães.

Em todo o lado há episódios racistas, não adianta escondê-lo. Mas em Portugal são a exceção que confirma a regra ou são a regra? A regra é o racismo ou é a tolerância racial?

Sejamos sérios!

Para acabar com o racismo, o caminho não é estar sempre a falar da mesma coisa, a explorar os casos esporádicos que acontecem, a remexer na mesma ferida – pelo contrário, é valorizar os casos em que a convivência entre as etnias é equilibrada e descomplexada, como no futebol. Não é explorar ao máximo os casos de racismo mas relativizá-los, sabendo-se que não traduzem o sentimento geral da sociedade.

A menos que queiramos que o racismo exista mesmo. Se for assim, o percurso que estamos trilhando é perfeito. As manifestações como as que se realizaram há semanas a propósito da morte de um negro pela polícia nos EUA é o ótimo caminho para alimentar o racismo em Portugal.

Querer à força que o racismo exista não contribui para acabar com ele: desperta-o e estimula-o cada vez mais.