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Fome de bola

Será que se quer uma imagem de Portugal e de Lisboa como sítio fantástico para se jogar a mais atípica e sinistra final da história da Champions?

A escolha da cidade de Lisboa para receber a final da Liga dos Campeões, que acontece daqui a um mês, deveria ser um momento de felicidade e de orgulho para os portugueses. Recebemos a notícia e fizemos a festa de que bem precisávamos depois dos meses de isolamento. Mas esquecemos o contexto e deixámos que a fome de bola levasse a melhor. Agora temos de lidar com as inevitáveis consequências: as económicas, as sanitárias e as promocionais.

Sobre as económicas, sabemos através dos responsáveis dos grupos hoteleiros que, em meados de julho, as reservas de hotéis na capital para o mês de agosto registam um aumento que varia entre pouco e quase nada. À data, apenas algumas comitivas, certamente com dimensões ajustadas aos tempos que vivemos, reservaram hotéis na capital. De outras possíveis receitas, como a taxação dos prémios que dão significado à expressão liga milionária, abdicámos. Mas talvez o aumento do número de turistas, que vão todos fazer reservas em cima da hora, resulte num aumento de atividade que permita a alguns setores saírem das ruas da amargura, nomeadamente a restauração. O que nos leva à segunda consequência, a sanitária.

Há poucas horas, o Presidente da República comentava os números do R, o famoso indicador que quanto mais alto pior e que, acima de 1, significa que a situação é grave. Lisboa, onde se realizam quase todos os jogos, tem registado valores próximos de 1. Longe vão os tempos do país exemplar. Certamente até agosto o contexto pode mudar. Vários especialistas afirmam que qualquer previsão sobre a evolução da pandemia – convém não esquecer que é disso que se trata – a mais de quinze dias de distância é só uma opinião, com pouca validade científica. A evolução da pandemia vai depender de um fator altamente imprevisível: vamos ou não ter gente na rua sem cumprir normas de segurança para contaminar e ser contaminada? Entramos na terceira consequência, a promoção.

A final da Liga dos Campeões é um bom evento para promovermos o país, a nossa capacidade organizativa, hospitalidade e ligação ao futebol. Ninguém fica indiferente ao nome. Não querendo discutir a necessidade de valorizar esses três aspetos, não percebo bem o objetivo desta promoção atendendo às condições em que o evento se realiza. Será que se quer uma projeção da imagem de Portugal e de Lisboa como sítio fantástico, que disponibiliza dois estádios, para se jogar a mais atípica e sinistra final da história da mais importante competição de clubes de futebol da Europa? Sem festa na rua e estádios vazios, haverá assim tanto para mostrar? Ou será que é um convite fazerem cá a festa mesmo sem puderem ir ao estádio? Mas venham bem comportados, não podem haver ajuntamentos e depois das dez horas caminha, porque não se vende cerveja em lado nenhum. Típico dos adeptos de futebol. Ou então, à semelhança de Liverpool e Nápoles, vamos mostrar como se faz festa da rija!

Conseguimos mais uma vitória! Ainda por cima frente a espanhóis e alemães, Madrid e Munique foram as outras cidades consideradas, depois de Istambul ter comunicado que, sem público, o investimento não compensava. Em Portugal nada disso, esta oportunidade «não tem preço» afirmam os nossos dirigentes. Orgulho de Pirro.

O melhor que poderia acontecer seria vermos todos a final de Lisboa pela televisão, em casa e com pouca companhia. Mas a fome de bola é tudo menos racional.