Cultura

Kanye West. Uma fantasia negra e retorcida

Produziu algumas das melhores e mais influentes músicas do séc. XXI, mas a sua personalidade controversa fez com que muitas pessoas se colocassem de pé atrás face à sua pessoa. Agora que voltou a anunciar que irá concorrer à presidência dos EUA, está na hora de analisar a sua legitimidade enquanto candidato.

Agosto de 2015. Kanye West, rapper norte-americano, sobe ao palco da Microsoft Theater, em Los Angeles, Califórnia, para receber o prémio Michael Jackson Video Vanguard Award, na cerimónia dos MTV Music Video Awards. No seu discurso de agradecimento, o músico larga uma bomba para o mundo. «Não sei o que vou perder depois disto, mas não importa, não é sobre mim. É sobre ideias. Novas ideias. Pessoas com ideias. Pessoas que acreditam na verdade», quando, finalmente, anunciou a inesperada notícia. «E sim, como vocês provavelmente já devem ter adivinhado, neste momento, decidi em 2020 concorrer à presidência dos Estados Unidos da América».

Saltemos para dezembro de 2016. Depois de o rapper ter anunciado o seu apoio a Donald Trump (por diversas vezes, West surgiu em público com chapéus a dizer Make America Great Again), anunciou que afinal só ia candidatar-se à presidência em 2024.

A última paragem temporal deixa-nos no sábado passado, quando o autor de álbuns seminais no universo do hip-hop como Late Registration, My Beautiful Dark Twisted Fantasy refutou a afirmação anterior. «Agora devemos cumprir a promessa dos Estados Unidos confiando em Deus, unificando a nossa visão e construindo o nosso futuro. Vou concorrer à Presidência dos Estados Unidos», escreveu o rapper no seu Twitter, acrescentando a hashtag #2020VISION, acolhendo o apoio do (igualmente problemático) bilionário Elon Musk, fundador da SpaceX e da Tesla.

 

Os (incontáveis) defeitos de um génio

Kanye West é, inegavelmente, um dos músicos mais influentes do séc. XXI. O músico surge em terceiro lugar na lista da NME dos músicos mais influentes do séc. XXI, o Guardian selecionou quatro dos seus álbuns na lista dos 100 melhores álbuns do século e a Pitchfork, na sua lista de 200 álbuns, selecionou três (sem contar com Daytona de Pusha-T, com produção de West).

A carreira do controverso músico começou exclusivamente como produtor, na Roc-A-Fella Records, fundado pelo seu amigo Jay-Z. Viriam a lançar, em 2011, o Watch the Throne, álbum assinado por ambos os rappers.

Ao utilizar samples de álbuns obscuros de soul tornou-se rapidamente um dos mais desejados produtores no mundo da música. Contudo, o seu grande objetivo era passar o seu nome da lista de créditos, enquanto produtor, e passá-lo para a capa do disco, enquanto rapper.

Muitos se opunham à decisão de West assumir o papel principal dado o seu background, que diferia da persona de rapper gangster que predominava na indústria. Contudo, com medo de perder as suas funções enquanto produtor, a Roc-A-Fella Records permitiu que o músico lançasse um álbum como rapper. Conhecido pelo tratamento obsessivo na produção da música, West trabalhava até à exaustão no estúdio e um dia, ao regressar a casa de carro, teve um acidente que o deixou com as duas pernas partidas e o maxilar fraturado.

Após recuperar da lesão, inspirado por este acontecimento, criou a música Through the Wire (uma alusão aos ferros que ajudaram à reconstrução do maxilar), que se veio a revelar um grande sucesso.

O resto? Uma história de sucesso. Acumula 21 Grammys, a maior parte da sua discografia está platinada pelo número absurdo de vendas. The College Dropout, o seu álbum de estreia, vendeu mais de 3,3 milhões de cópias.

A única coisa que supera o sucesso do músico são as controvérsias. E não estamos a falar de controvérsias cor de rosa, como o facto de West se ter casado com a mais famosa das irmãs Kardashian, Kim. São controvérsias que fazem questionar se o rapper é efetivamente um político, ou um homem, que queremos apoiar.

Num longo artigo onde eram dissecadas algumas das ideologias e propostas de Kanye West para a candidatura política, Randall Lane, jornalista da Forbes, destacou algumas citações como a sua confissão que nunca votou na vida, a sua suspeição perante a vacina do coronavírus (o músico esteve infetado em fevereiro), designando-as como «a marca da besta», o facto de acreditar que a Planned Parenthood foi colocada em cidades de supremacistas brancos para fazer «o trabalho do diabo» e a sua visão da Casa Branca ser baseada no país fictício de Wakanda, que pode ser visto no filme da Marvel, Black Panther.

Contudo, nada encapsula melhor as preocupações dos americanos como o artigo de opinião de Dean Obeidallah, publicado na CNN, que relembra que «nada no background de West, enquanto um músico galardoado – com um comportamento errático – sugere que ele estivesse pronto para ser presidente», apontando ainda para o espaço mediático que este iria ocupar numa altura em que milhares de americanos morrem todos os dias devido à covid-19. «A sua candidatura é uma distração perigosa numa altura que americanos morrem diariamente devido a uma pandemia mortal e que estão a lutar desesperadamente para encontrarem soluções financeiras que permitam autossustentarem-se».

Claro que, para falar de Kanye, é obrigatório falar sobre a sua saúde mental. Em 2016, depois de um colapso em palco, em que acusou o seu amigo Jay-Z de enviar assassinos para o matarem, foi internado num hospital com sinais de alucinações e paranoia. Em 2019, numa entrevista a David Letterman, confessou sofrer de transtorno bipolar e no ano anterior, numa entrevista para a TMZ, confessou que não tomava medicação para esta condição porque sentia que afetava a sua criatividade. Segundo o mesmo site de entretenimento, fontes próximas de West indicam que este se encontra num grave surto de bipolaridade, algo que pode ter tido influência nas decisões que tomou nas últimas semanas.

O facto de ter sido hospitalizado devido a problemas associados a saúde mental não invalida a sua opinião, acredita Prudy Gourguechon, colaboradora da Forbes. Esta escreve que «estar ativamente confuso e desorganizado, como West parece para muitos espetadores, significa que deve procurar ajuda e justifica o facto de questionarem a legitimidade das suas afirmações e dos seus comportamentos».

Como pode um homem com estas condições ser alguém de confiança para um papel tão fundamental e sensível num contexto global? Recuperando uma das suas mais famosas e controversas citações, o próprio parece ter lançado um aviso ao público. «Só deves acreditar em cerca de 90 por cento das coisas que digo.
Na verdade, nem eu acredito de todo no que digo. Eu posso ter estado a gozar contigo
e com o mundo o tempo todo».