Pátio das Cantigas

Um pesadelo com asas

Pedro Nuno Santos apostou no retorno da TAP ao setor público, com quase dez mil trabalhadores, nacionalizando 
os prejuízos...

Deu nas vistas, em 2016, a metáfora recriada por António Costa, na cerimónia de lançamento do programa Simplex, ao oferecer à então ministra da Presidência, Maria Manuel Leitão Marques, uma ‘vaca voadora’, em nome da tese de que não há impossíveis, enquanto apresentava uma ‘resma’ de 255 medidas para, supostamente, reformar o Estado, uma piedosa intenção que não passou disso.

Bem precisava agora que essa simbólica ‘vaca com asas’ o inspirasse e ao Governo, para ‘tirar do chão”’ a maioria da frota da TAP imobilizada, vitima (falida) do efeito cruzado da pandemia com ‘pecados antigos’, e com a agenda ideológica do ministro da tutela, que decidiu ‘falar grosso’ e pôr-se ‘em bicos de pés’ para nacionalizar, na prática, a companhia, sem ter sequer um CEO substituto à mão, como alternativa ao que despediu sumariamente. 
O que se segue, neste pesadelo anunciado, não é bonito de se ver. Muito mais do que um jogo de forças no interior do PS, para definir o sucessor de António Costa, o que está em causa é um exercício de sobranceria política, por interposta ‘companhia de bandeira’, deixada à deriva na tempestade, o que vai custar muito caro aos contribuintes. 
O ministro Pedro Nuno Santos, que se especializou em comprar ‘sucata’ ferroviária à Renfe espanhola – talento de que se vangloria, para acudir à frota envelhecida da CP e não destoar –, apostou no retorno da TAP ao setor público, com quase dez mil trabalhadores, nacionalizando os prejuízos. 

O destempero que exibiu, não se resgata num texto de favor, publicado, curiosamente, pelo Observador, um jornal digital conservador, cuja linha editorial está nos antípodas do esquerdismo militante de que se reivindica. Mas que tem audiência e é isso que conta. 

A privatização acabou. E a fatura da renacionalização vai pesar muito nos cofres do Estado. Uma operação ruinosa. 

Costa aprecia o ilusionismo, como se notou, ao repetir a fórmula de convidar um ‘mágico amigo’, para conceber um plano destinado à década. Prova-se que não lhe faltam ‘amigos de peito’, sempre disponíveis para trabalhar ‘pro bono’.
Anteriormente, foi Diogo Lacerda Machado, que negociou como ‘representante pessoal’ do primeiro-ministro, a reversão da privatização da TAP, com «muito orgulho», sendo depois, por acaso, nomeado administrador da empresa, sem ver nisso quaisquer conflitos de interesses. Uma «vergonha» disse Passos Coelho. Mas quem o ouviu?
Com a experiência adquirida na administração executiva da TAP, mal se compreende que o ministro da tutela sinta necessidade de contratar uma empresa de ‘headhunters’ para selecionar gestores, quando tem Lacerda Machado à mão.

Ou será que o gestor não encaixa na «bravata ideológica» do ministro, como lhe chamou um comentador socialista?
Afinal, o amigo pessoal do primeiro ministro desiludiu? Ou teve razão o Expresso, no inicio de julho, quando titulou Guerra de meses entre Pedro Nuno Santos e Lacerda Machado agravou o impasse. Costa tentou colar os cacos ? 
Num intervalo desta novela de mau gosto, seria útil que, em S. Bento, se espreitassem os cenários sombrios de Belém, nos quais, de mansinho, Marcelo já adverte que a crise económica e social é profunda e que «ninguém sabe até onde vai», podendo estender-se «até 2022 e 2023». 

O Presidente nunca perdeu o treino das charlas dominicais enquanto comentador televisivo e, provavelmente, gostaria de ser reeleito sem as atribulações que se adivinham. 

De facto, o vírus veio pôr a descoberto a vulnerabilidade da nossa estrutura económica, assente, nos últimos anos, no crescimento exponencial do turismo, sem ninguém reparar na volatilidade do negócio, exposto, por natureza, a vários fatores imprevisíveis.

O imprevisto, desta vez, veio da China, sob a forma de um vírus manhoso, exportado em doses maciças, a nível global. 

Em consequência, a ‘almofada’ de que se ufanava Mário Centeno, depois de muitas cativações, evaporou-se e o país voltou a ficar de mão estendida, à espera da boa vontade ‘solidária’ da Europa, se os ‘frugais’ consentirem... 
Estamos confrontados com a angústia do dia seguinte, pressentindo-se já os ‘golpes de rins’ e a disputa dos lugares vagos à mesa, antes que arrefeçam os ‘tachos’... 

Entre a ‘autonomeação’ de Mário Centeno para governador do BdP ou a escolha de Rita Rato, num ‘simulacro’ de concurso, para diretora do Museu do Aljube – com a chancela de Medina e de Catarina Vaz Pinto –, percebe-se que se instalou um poder soberano, que já nem procura disfarçar o que lhe vai na alma.

Pelo meio, o primeiro ministro recorre a amigos, como António Costa e Silva, para empreitadas ambiciosas, o que é um ‘atestado de pobreza’, em matéria de competências, passado ao mais numeroso governo pós-25 de Abril. 
Moral da história: Este pesadelo tem asas…