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As intervenções provisórias no espaço público de Lisboa

A intervenção no espaço público de Lisboa exige preocupação com a respetiva qualificação, seja a intervenção
provisória ou definitiva

Em Lisboa, várias ruas são pintadas, lugares de estacionamento são ocupados por esplanadas e ciclovias são instaladas em vias centrais da cidade. As intervenções ‘pop-up’ na cidade marcam a estratégia de resposta da Câmara Municipal à pandemia e à retoma da vida na cidade. É uma resposta rápida e vistosa mas nem sempre adequada.

Neste tempo em que é vital o cumprimento das regras sanitárias, nomeadamente a do distanciamento físico, a criação de condições para que as pessoas cumpram esse requisito é muito importante.

Também o impulso à retoma do comércio, em particular da restauração, é fundamental para a economia e para o emprego locais, pelo que oferta de condições de adaptação do sector às atuais exigências é determinante.

Por último, mas seguramente o mais importante, é fundamental fomentar a confiança dos cidadãos na retoma, ainda que condicionada, da vida do dia-a-dia. Neste sentido, as ações com visibilidade contribuem para a tão necessária sensação de segurança.

As medidas que estão a ser tomadas no espaço público em Lisboa são, neste sentido, uma resposta imediata a estas premissas.

A urgência de concretizar estas iniciativas levou a utilizar uma metodologia apelidada de ‘pop-up’, ou seja, de poderem ser temporárias. Esta estratégia conduziu a opções, em algumas circunstâncias, mais ‘ligeiras’, com soluções e materiais que não qualificam o espaço público, especialmente em zonas históricas da cidade.

Mas o caráter provisório não implica menor cuidado nas intervenções. Em vez de ruas pintadas com cores vivas, tão pouco adequadas em zonas históricas, porque não marcar a pedonalização desses espaços com floreiras? Porque não instalar mobiliário urbano com qualidade mesmo sendo temporário? Em vez de, simplesmente, se permitir a ocupação de mais espaço com esplanadas, muitas vezes sem preocupação estética, porque não fornecer mobiliário uniforme e com qualidade para os novos espaços de esplanadas?

E no caso das intervenções definitivas de corte do trânsito, porque não lançar um concurso para novos artistas para novos desenhos em Calçada Portuguesa para pavimentar posteriormente esses espaços, dinamizando a criação artística e oferecendo um pavimento bem aplicado que é parte da identidade de Lisboa, qualificando assim o espaço público?

Lisboa tem um espaço público com enorme potencial de fruição, seja pela diversidade de locais, seja pelo clima favorável. A crise que atravessamos deve ser vista como uma oportunidade para a criação de condições para uma maior apropriação desses espaços. Compreende-se, nas atuais circunstâncias, que a resposta tenha de ser rápida e que algumas intervenções sejam apenas temporárias. Mas a rapidez ou o caráter provisório não são incompatíveis com a exigência na qualidade das alterações aplicadas.

O espaço público de uma cidade é também a sua ‘sala de visitas’. A intervenção no espaço público de Lisboa exige, em qualquer circunstância, preocupação com a respetiva qualificação, seja a intervenção provisória ou definitiva.