Não é só opinião

Opinião: Mousavi-Majd: como a invenção da ligação à Mossad/CIA mostra o colapso iminente dos Ayatollahs no Irão

Recorda-se do frenesim mediático e da indignação dos nossos jornalistas, comentadores e políticos bem pensantes de esquerda( infelizmente, não só nesse lado do espectro político) aquando do derrube eterno do assassino bárbaro iraniano Soleimani pelas forças norte-americanas, em Janeiro passado?

Lembra-se dos discursos sempre muito excitados dos nossos sacerdotes do politicamente correto sobre o erro histórico, que poderia descambar em 3.º Guerra Mundial, que havia sido a decisão do Presidente Trump em eliminar um homem que tem as mãos manchadas de sangue de inocentes, um terrorista dos sete costados, como era Soleimani? Como escrevemos então, é um sinal inequívoco dos tempos a lamentação quase consensual no mundo mediático, entre nós, pela morte de um brutal terrorista, que jurava morte à nossa forma de viver e a quem somos. Prefere-se estar contra a maior democracia do mundo, contra um político democraticamente eleito – mesmo que tal implique uma aliança com os regimes mais diabólicos, monstruosos e assassinos à face da Terra. Os interesses falam mais alto.

Façamos agora o contraponto com o que sucedeu há escassos dias no Irão: Mohammad Mousavi-Majd foi executado, em cumprimento de uma decisão do Supremo Tribunal Revolucionário da teocracia iraniana, porque terá espiado a favor da Mossad e da CIA, traindo a sua “amada pátria”. Mousavi-Majd, note-se,  aparentemente era um cidadão com dupla nacionalidade (síria e iraniana – as autoridades iranianas, ao contrário do que é habitual em processos judiciais, não revelaram publicamente a nacionalidade de Mousavi, limitando-se à referência à filiação), tendo sido educado na Síria, território onde aprendeu a dominar com fluência as línguas árabe e inglesa.

Consequentemente, havia sido contratado por empresas a operar na Síria para prestar serviços de tradução: foi assim que se aproximou das forças iranianas, passando a colaborar com forças ligados ao Qods (a Guarda Revolucionária da República Islâmica do Irão). Em 2018, Mousavi-Majd começou a ser investigado por espionagem e traição: a sua detenção haveria de ocorrer volvidos alguns meses. Segundo a sentença que ditou a morte de Mohammad Mousavi-Majd, este teria passado informações relacionadas com localização de bases militares, de trabalhos de desenvolvimento de armas nucleares, de instalações nucleares, de canais de transmissão e de códigos de segurança para os serviços de intelligence israelitas e norte-americanos.

Os Ayatollahs para justificar a decisão de condenação à morte de Mousavi-Majd apresentam um vídeo em que este confessa que procedeu à entrega de informações classificadas da teocracia iraniana quer para a Mossad, quer para a CIA. Reforça-se, ainda, que esta condenação é mais um passo para se fazer justiça pela morte do “mártir” Soleimani: isto porque Mousavi-Majd, segundo a versão oficial dos Ayatollahs (que raramente, senão mesmo nunca, corresponde à realidade), terá sido a “toupeira” que forneceu os dados e elementos necessários para as forças militares dos EUA atacarem com êxito o brutal assassino que liderava a organização terrorista que é a Guarda Revolucionária do Irão.

Ora, o que dizer de tudo isto? Primeiro, lamentar o silêncio cúmplice quer dos políticos, quer da comunicação social, quer (sobretudo?) das ONG’s que (pelo menos, dizem) promover a defesa dos direitos humanos. Este é um caso paradigmático de violação ostensiva dos mais elementares direitos humanos – o direito à vida e o direito a um processo judicial equitativo.

Mohammad Mousai-Majd foi assassinado em função , apenas e só, das conveniências políticas dos Ayatollahs. Se as associações e personalidades que tantas lições nos querem dar sobre direitos humanos mantiverem o seu silêncio tristemente ruidoso, então, fica provado, para além de qualquer dúvida razoável, que são motivadas apenas por agendas ideológicas. Que, enfim, a sua relevância é cada vez menos relevante: atuam em claro desvio de poder, prosseguindo fins que não são aqueles para os quais foram constituídas.

Em segundo lugar, a argumentação dos Ayatollahs é absolutamente incoerente e desfasada de qualquer sentido lógico. Vejamos. O regime iraniano alega que Mohammad Mousavi-Majd  trabalhava quer para a CIA, quer para a Mossad. Indistintamente, passando informação para ambos os serviços de informações. Não é que o autor destas linhas conheça as práticas das agências de Intelligence em causa, mas não é necessário ser um Sherlock Holmes para identificar a bizarria da alegação dos Ayatollahs iranianos: então, Mousavi-Majd trabalharia simultaneamente, para Israel e para os EUA, passando exatamente a mesma informação para ambas as agências, sendo que só uma delas pagaria a este informador?

Por que razão Mousavi-Majd  aceitaria o risco elevadíssimo de estabelecer contacto com duas agências, duplicando chamadas (por telefone, por satélite, por outras formas digitais, presencialmente…) e, logo, duplicando o risco de ser intercetado pelas autoridades iranianas? E por que razão, numa outra perspectiva, estariam a Mossad e a CIA dispostas a aceitar um plano que poderia colapsar a qualquer momento, comprometendo ambas as agências, quando facilmente poderiam trocar, depois, informações entre si?

Dir-se-á que Mousavi-Majd estaria trabalhando para empresa privada associada a agências de intelligence israelitas ou norte-americanas. Contudo, se tal explicação proceder, então o regime iraniano ou é absolutamente amador – ou estupidamente incompetente.

 Isto porque se Mousavi-Majd estivesse a trabalhar para uma empresa privada, tal significaria obviamente que ainda persiste uma “rede de informadores” que passa sistematicamente informações para a Mossad e para a CIA. Ora, como é que as autoridades ao serviço dos Ayatollahs apenas identificaram este informador e não outros? E de que forma  procederam a esta identificação?

Mais: como a detenção foi anterior à morte de Soleimani, se tal transmissão de informações for verdadeira, significará que o fluxo de informações continua bem ativo, o que é uma excelente notícia para o “Mundo Livre” e uma péssima notícia para o regime teocrático bárbaro dos Ayatollahs. Mousavi-Majd seria um agente instrumentalmente relevante, mas não essencial.

Insistimos: se a tão falada Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (e o Conselho Superior de Inteligência Nacional do Irão) consegue identificar uma pessoa, mas não uma rede, e se mesmo após a detenção da pessoa que consideram a “principal toupeira” as informações que chegam ao Instituto e à “Agency” são até superiores e mais precisas,  levando à eliminação do principal líder das Qods,  então tal demonstra que as forças militares e de segurança dos Ayatollahs foram totalmente manipuladas. Foram (são?) amadoras. Ou…tudo isto não passa de uma grande farsa, uma encenação à medida dos interesses políticos dos Ayatollahs.

Em terceiro lugar, o processo de condenação de Mousavi-Majd foi um teatro montado para disfarçar a barbaridade do regime iraniano: Mousavi já estava condenado a priori, desde o momento em que foi capturado.

De facto, as autoridades iranianas revelaram-se absolutamente incompetentes, como resulta da sentença, para produzir qualquer prova que ligasse a pessoa referida à CIA, à Mossad ou mesmo a qualquer “private contractor”.

Mais: as autoridades iranianas nem sequer conseguiram explicitar, muito menos provar, que informações Mousavi-Majd terá passado aos serviços de inteligência israelita e dos EUA. Ora, num processo que se baseia na prestação indevida de informações nacionais para serviços estrangeiros, como se poderá condenar alguém sem se, pelo menos explicitar, as informações cedidas?

Pior: inicialmente, os Ayatollahs, e as forças e agências ao seu serviço, invocaram que se trataria de informações relacionadas com os movimentos do General Soleimani. Ora, atendendo a que a detenção (repetimos) ocorreu em 2018, presumindo-se que aí as autoridades iranianas já teriam intercetado as informações passadas para terceiros e “perniciosas para a segurança nacional”, como compreender que Soleimani continuasse a circular nos termos usuais, sem qualquer medida de proteção adicional e que a sua morte pelos EUA surgisse como uma surpresa total para o regime dos Ayatollahs?

Seria preciso que as forças e serviços iranianos fossem muito incompetentes e amadores…Todo o processo montado contra Mousavi-Majd é uma farsa, uma mentira e uma manobra de distração montada pelos Ayatollahs para fins políticos internos. Para o regime bárbaro teocrático iraniano viver é preciso que o seu povo (não fanático) morra. Mousavi-Majd foi apenas mais uma vítima.

Em quarto lugar, segundo consta do processo, o contacto que Mousavi-Majad estabeleceu com os serviços de inteligência dos EUA foi por via de uma chamada telefónica com um agente da CIA estacionado numa base da “Agency “ do Sudoeste Asiático. Do Sudoeste Asiático? De onde? Do Japão ou da Coreia do Sul?

Mas o Japão, especialmente o Primeiro-Ministro Shinzo Abe, tem uma relação amistosa com o regime iraniano dos Ayatollahs –donde, não parece fazer sentido que o contacto partisse do Japão.

Na verdade, a CIA dispõe de Bases e Centros de Comando Operacional muito mais eficazes e adequados para um tipo de operação deste tipo, envolvendo um agente infiltrado em estruturas do Irão…E, já agora, muito mais seguras. A alegação dos Ayatollahs, mais uma vez, não faz qualquer tipo de sentido.

Em quinto lugar, as autoridades dos Ayatollahs cometeram um lapso monumental que prova o jogo de mentiras fatal que criaram apenas para executar Mousavi-Majd. O porta-voz do poder judiciário da Revolução Islâmica do Irão – Gholam Hussein Esmail – afirmou, aquando do anúncio da execução e divulgação da fotografia, que esta se justificaria pelo envolvimento de Mousavi-Majd no assassinato do General Soleimani (presumindo-se, pois, que as informações prestadas teriam que ver com a exata localização do General).

Sucede, porém, que como já referimos, Mousavi-Majd já estava, à data do feliz dia da eliminação de Soleimani pelas forças norte-americanas, detido há mais de um ano. Como era possível ter participado em tal evento? As autoridades do Irão dos Ayatollahs tiveram que rapidamente mudar a narrativa, até para evitar a diminuição da autoridade da sua decisão “jurisdicional” (e manter, consequentemente, a farsa…).

Em conclusão: não cremos que Mohammad Mousavi-Majd tenha colaborado, como alegado pelos Ayatollahs, com a Mossad ou com a CIA. Não deixamos, porém, de lamentar a omissão censurável dos líderes europeus, da comunicação social e da sociedade civil relativamente a mais esta atrocidade cometida pelo regime iraniano dos Ayatollahs. A elite dominante entre nós chora a morte de terroristas – mas esquece a morte de cidadãos inocentes às mãos dos regimes totalitários mais sanguinários à face da Terra.

Mousavi-Majd não será esquecido; a sua morte não foi em vão- colocou a descoberto a total desorientação do regime iraniano. Tirou o véu às suas fragilidades, à incompetência reinante e à histeria e loucura que anima os dirigentes do regime dos Ayatollahs. Regime que vai cair em breve, graças a verdadeiros mártires da Liberdade como Mousavi-Majd.

O Irão é um Estado sem liderança. E, sem liderança, os Estados colapsam. A verdade sobre a farsa do assassinato de Mousavi-Majd virá à tona: a verdade prevalecerá e a verdade libertará o povo iraniano.