Economia

Negócios da EDP mexem com nova liderança

No espaço de uma semana, elétrica anunciou o encerramento das centrais de carvão, a compra da Viesgo e consequente aumento de capital.

Nova liderança, vida nova. Miguel Stilwell d’Andrade menos de dez dias depois de assumir a liderança da EDP já ‘revolucionou’ a estratégia da empresa. O encerramento antecipado das centrais a carvão na Península Ibérica, a compra da espanhola Viesgo e o anúncio de aumento de capital da elétrica em mil milhões foram os planos anunciados pelo novo CEO no espaço de uma semana. Francisco Alves, analista da corretora Infinox aplaude as medidas e reconhece que apesar de António Mexia ter começado a delinear estas mudanças na vida interna da elétrica, "o novo CEO demonstra determinação em expandir os horizontes da empresa", garante ao SOL.

Um desses exemplos é a compra da Viesgo por dois mil milhões de euros, mas para financiar a operação vai avançar com um aumento de capital de mil milhões de euros. "É uma decisão bastante positiva tendo em conta a situação económica atual, mostrando um sinal de confiança e prosperidade por parte da empresa", diz o analista. 

Com esta aquisição, a E-Redes, a subsidiária da EDP para distribuição de eletricidade em Espanha, vai juntar-se a duas subsidiárias de distribuição de eletricidade da Viesgo: a Viesgo Distribución e a Begasa, vão passar a ser geridas maioritariamente pela EDP. A elétrica portuguesa terá uma participação de 75,1% e a Macquarie Infrastructure and Real Assets (Europe) Limited (em conjunto com os seus fundos, MIRA) torna-se dona dos restantes 24,9% do capital.
A elétrica vai ficar ainda com duas centrais de geração térmica da Viesgo no sul de Espanha, "que potencialmente irão incorporar direito aos pontos de ligação à rede" assim que outras centrais sejam desativadas em 2021.

Recorde-se que esta terça-feira a elétrica anunciou que irá encerrar três centrais a carvão, a de Sines, a de Aboño e a de Soto Ribera 3. O processo arranca já com a Central de Sines. "Foi entregue à Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) uma declaração de renúncia à licença de produção para que possa encerrar a sua atividade em janeiro de 2021", revelou a elétrica. Também para a unidade 3 de Soto de Ribera, em Espanha, "está em curso um projeto de conversão da central que prevê a substituição do carvão por gases siderúrgicos nos próximos anos".

 Na Central de Aboño, também na região das Astúrias, mantém-se o pedido de licenciamento anunciado em dezembro do ano passado, que prevê a conversão de carvão para gases siderúrgicos a partir de 2022. Esse processo envolve a modificação de um grupo com 342 MW de potência, mantendo-se um segundo grupo (de 562 MW) como apoio a indisponibilidades, contribuindo assim para uma economia mais circular.

De acordo com a empresa liderada por Miguel Stilwell d’Andrade, esta decisão está enquadrada na estratégia de descarbonização do grupo EDP e "foi tomada num contexto em que a produção de energia depende cada vez mais de fontes renováveis", acrescentando que "com o crescente aumento dos custos da produção a carvão, aliado a um agravamento da carga fiscal, e com a maior competitividade do gás natural, as perspetivas de viabilidade das centrais a carvão diminuíram drasticamente".

Esta iniciativa de fecho antecipado deverá ter um "custo extraordinário de cerca de 100 milhões de euros (antes de impostos) em 2020", adianta ainda a EDP. E a empresa garantiu que "nos referidos processos de encerramento e reconversão respeitará integralmente todas as responsabilidades de índole laboral".

 A elétrica está agora a avaliar o desenvolvimento de um projeto de produção de hidrogénio verde em Sines, em consórcio com outras empresas. "A decisão de antecipar o encerramento de centrais a carvão na Península Ibérica é, assim, uma consequência natural do processo de transição energética, estando alinhada com as metas europeias de neutralidade carbónica e com a vontade política de antecipar esses prazos", explica Miguel Stilwell d’Andrade.
Decisões que, segundo Francisco Alves, "não terá grande impacto" E explica: "Apesar de antecipadas, as medidas preventivas foram já tomadas", refere ao SOL.

A aquisição da empresa espanhola representa um investimento líquido de 900 milhões de euros, assumindo também a empresa portuguesa a dívida de 1,1 mil milhões da companhia espanhola. Desta forma, a operação tem um valor de dois mil milhões de euros para a EDP, o que representa um dos maiores negócios realizados pela empresa nos últimos anos. Este negócio avalia a Viesgo em 2,7 mil milhões de euros, sendo os restantes 700 milhões de euros investidos pela MIRA, que continua acionista da Viesgo.

Para o aumento de capital, a EDP irá vender ações com desconto de 23%, o que provocou, no entender do analista, a "uma pequena descida no preço das ações". No entanto, admite que a longo prazo a EDP irá beneficiar com este negócio e, consequentemente, o preço das suas ações irá acrescentar valor a longo prazo. 
Quanto ao plano estratégico, ainda apresentado por António Mexia, Francisco Alves admite que "naturalmente poderá sofrer pequenas alterações", mas acredita que "as ideias nucleares pretendidas anteriormente por Mexia serão mantidas".