Viver para Contar

Quanto mais me bates...

Em casos de violência doméstica, pode acontecer a vítima retirar prazer de uma situação de inferioridade

Refletindo sobre o flagelo da violência doméstica, alguns comentadores afirmam que «é impossível alguém gostar de quem lhe bate».

Francisco Moita Flores, por exemplo, defende continuadamente esta ideia. E eu interrogo-me: será que ele acredita mesmo nisso ou di-lo por razões morais? Ou por razões utilitárias? Di-lo por estar convicto desse facto ou para tirar as ilusões aos agressores? Para lhes dizer: «Se estão convencidos de que as mulheres que maltratam gostam de vocês, desenganem-se!».

Ora, não estou certo de que as coisas sejam assim tão simples. Os sentimentos humanos são complexos, como Moita Flores muito bem sabe. A mente humana não é plana e as emoções não são lógicas nem racionais. Não pode dizer-se: «Aquele fulano trata a mulher mal, portanto ela não pode gostar dele». Ou: «Aquele homem trata a mulher bem, portanto ela gosta com certeza dele».

As emoções não funcionam com este ‘determinismo’. Conheço variadíssimos casos de homens que tratavam bem as respetivas mulheres, eram especialmente atenciosos, cumulavam-nas de atenções e de carinhos, e elas repudiaram-nos. Não cito nomes porque seria indelicado ou mesmo cruel.

E o contrário também é verdade: sei de mulheres cujos maridos as maltratam, as desprezam, às vezes as amesquinham à frente de terceiros, e elas continuam presas a eles, com receio de os perder.

Claro que isso acontece em muitos casos por razões de dependência económica. As mulheres não deixam os maridos porque não podem. Porque não têm independência financeira. Mas não nos iludamos: em muitas relações violentas existe uma dependência afetiva da agredida em relação ao agressor. Chame-se-lhe amor ou outra coisa qualquer. Mas lá que existe, existe. 

Não era por acaso que o povo dizia «Quanto mais me bates, mais gosto de ti». Não será hoje a regra, mas nestes ditos há sempre uma base de verdade. Há casos concretos que os fizeram nascer e os alimentam.

O fado é, aliás, um rosário de mulheres desprezadas que não conseguem desligar-se amorosamente dos maridos ou amantes. Se eu soubesse que morrendo/ Tu me havias de chorar/ Por uma lágrima tua/ Me deixaria matar.

A mente humana é complexa. Nas relações amorosas há muita coisa que confusamente se mistura: o deslumbramento, o amor, o desejo, a paixão, o hábito, a dor… 

O masoquismo é uma prova disso. Há pessoas que retiram prazer da tortura, dos maus tratos, do sofrimento físico ou psicológico, do amesquinhamento. Pessoas que são chicoteadas, sufocadas, insultadas, que rastejam no chão como animais pedindo desculpa ao ‘dono’ por supostas desobediências. Quem não conhece estas histórias? Casos em que «o prazer não advém da sensação corpórea de dor mas de uma situação de inferioridade perante um parceiro sexual», citando um especialista.

É exatamente isto. E numa situação de violência doméstica pode acontecer o mesmo: retirar-se prazer de uma situação de inferioridade.

Note-se que não estou a falar apenas da violência do homem sobre a mulher, embora estas situações sejam as mais vulgares pela simples razão de que a vantagem física está quase sempre do lado do homem. Mas também conheço histórias de violência doméstica no feminino, através do achincalhamento psicológico: «Tu não prestas. Não serves para nada. Nem na cama és bom…». E há ainda a violência em relações homossexuais, que assume por vezes aspetos de especial brutalidade pois a força física dos parceiros é mais equilibrada. 

Enfim, nestas histórias podemos dizer que há situações para todos os gostos – e querer estabelecer regras neste campo é quase impossível.

E julgo mesmo que no estádio atual da sociedade a violência doméstica é um problema sem solução. Já se percebeu que o remédio para acabar com ela não são os debates televisivos, nem as campanhas, nem os colóquios, nem as leis. Quanto mais se fala do problema, mais casos surgem. 

Além de que há nisto muita hipocrisia: já vi jornalistas e políticos a teorizarem em debates sobre a violência doméstica, quando eles em casa a praticam com despudor.

Só haveria uma forma de fazer recuar esta praga: revalorizar a família. Numa família ‘normal’, ‘normalmente constituída’, é mais fácil estabelecerem-se relações de respeito. Agora, em casos em que as trocas de parceiros se tornam constantes, em que a estabilidade familiar desaparece, em que o caos afetivo se instala, é quase inevitável perder-se o respeito – e a violência doméstica tem um campo muito maior para alastrar.

Aqui sim, está o nó da questão. Mas ninguém o diz, porque é uma verdade inconveniente.