Politica

Salazar. O regresso à terra

O homem que governou o país durante quatro décadas morreu faz agora precisamente 50 anos: no dia 27 de julho de 1970. Expirou solitariamente em S. Bento, depois de uma longa agonia, pensando que ainda era chefe do Governo. Mas o seu funeral teria uma pompa como nunca se vira, saindo dos Jerónimos para a pequena aldeia do Vimieiro, donde era natural. No 2.º volume da obra Estado Novo: A História Como Nunca Foi Contada, José António Saraiva faz a reconstituição do acontecimento, que o SOL pré-publica em exclusivo.

No dia 14 de Julho, uma terça-feira, Salazar recebe em S. Bento uma visita que se tornara habitual – o Presidente da República –, que desta vez vem na companhia da mulher Gertrudes, o que também acontecia de vez em quando. Nada, portanto, parecia distingui-la de outras, noutras ocasiões, com a diferença de que agora vão despedir-se dele: no dia seguinte partirão para S. Tomé, para participarem nas comemorações dos quinhentos anos da descoberta do arquipélago. O Presidente da República gosta de o ver: Salazar mostra-se bem-disposto e faz comentários atilados. O que nenhum deles adivinha é que este encontro entrará na História pelas piores razões. Aqueles dois homens que durante dez anos tinham trabalhado juntos numa harmonia perfeita, ocupando os dois postos mais altos da hierarquia do Estado embora numa inversão de valores (o presidente do Conselho mandando e o Presidente da República submetendo-se), nunca mais se verão. Este é o seu último encontro. 

Logo no dia seguinte à visita de Thomaz, manifesta-se no doente uma infecção com complicações. E no dia 16 dá-se a falência do aparelho urinário. Mas Salazar agarra-se uma vez mais à vida e regista novas melhoras. A 21 de Julho, um aparelho de hemodiálise, único no país, é transportado para S. Bento, vindo do Hospital Curry Cabral. Dois dias depois, a 23 de Julho, Salazar recebe a visita de Marcello Caetano – que também será a última. Depois volta o carrossel com melhoras e recaídas. Mas agora o fim é irreversível. No dia 27 de Julho de 1970, às primeiras horas do dia, Oliveira Salazar recebe a extrema-unção do pároco da Estrela, padre Tobias Gomes Duarte. E às 9h15 morre, dizendo umas últimas palavras ciciadas que só D. Maria, inclinada sobre o leito de morte, ouvirá: «Sim, mãe, sim».

As palavras derradeiras do homem que dominara o país eram, assim, um regresso ao princípio de tudo – dirigidas à mulher que lhe deu o ser, como se procurasse protecção no útero materno. Muito tempo antes confessara: «Não poderia ser muito tempo ministro se a minha mãe não tivesse morrido. Ela não podia viver sem mim e eu era incapaz de trabalhar quando a sentia inquieta.»

Assistiram à morte, Maria de Jesus, sempre presente ao seu lado, a sobrinha Maria Carlota  Salazar Pais de Sousa, o padre Tobias, uma empregada, duas enfermeiras e os médicos que o acompanhavam. 

Pouco depois, o director da PIDE, major Silva Pais, confirmaria o óbito através do telefone da residência oficial de S. Bento.

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Morto o ditador – que para uns irá para o céu e para outros para o inferno –, o seu médico, Eduardo Coelho, escreve um testemunho decisivo. Ele foi a pessoa que, depois da governanta, esteve mais próxima de Salazar no período final da vida:

 «Este homem viveu dentro de si o maior drama que é possível imaginar-se. Não foram apenas as complicações gravíssimas, de órgão a órgão, era a vida inteira do seu organismo, eram as dores de espírito, eram as dores da alma.

Os antigos ministros, os que lhe deviam tudo, os que ele colocou em lugares chorudos, abandonaram-no na maior parte, não lhe deram assistência moral. Vejo-os todos na minha frente. Eu próprio lhes pedi que o visitassem.

Muitos nunca puseram os pés em S. Bento. A alguns lembrei que deviam visitá-lo... e não o consegui. Que tristeza! Podia juntar os nomes dos que faltaram. E como ele sentia os que faltavam. De alguns a quem pedi, três foram vê-lo semanas depois. Estávamos no parque.

Salazar: ‘Então por onde tem andado? Há tanto tempo que o não vejo’. ‘Tenho andado por aí…’, foi a resposta. Salazar cerrou os lábios e nunca mais lhe falou. Raros segundos passaram até que o interlocutor desapareceu.

Foi a angústia que dominou os dois últimos anos da vida de Salazar. Salazar não viveu, sobreviveu a uma doença terrível que não poupou órgãos e sistemas.

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