Opiniao

O aeroporto não deve (não tem) de ser no Montijo

A alternativa Montijo perde na comparação direta com Alcochete no impacto ambiental (incluindo as populações afetadas) e na longevidade do investimento. É equivalente no custo e no tempo de construção se for comparada com a solução faseada para Alcochete e apenas perde na acessibilidade.

A atual crise abalou muitas das nossas certezas. O aeroporto Humberto Delgado deixou de estar ‘pelas costuras’. Este era o momento para tomar uma decisão sem ser condicionada pela urgência quanto à construção de um novo aeroporto na região de Lisboa. Porque não?

Todas as previsões apontam para uma lenta recuperação da atividade da aviação civil. Os diversos organismos da aviação civil internacional apontam 2023 para regressarmos aos níveis de 2019.

Até há 6 meses, a construção do novo aeroporto era urgentíssima (já era em 2015) e não se podia esperar mais. Este foi o principal argumento para se optar pela construção de um aeroporto complementar à Portela no Montijo. Mas este argumento foi derrubado pela crise que atravessamos.

A pandemia veio impor mudanças aos pressupostos anteriores. Mas não só: a prazo será inevitável a restrição de voos de curta distância em razão das limitações às emissões de gases poluentes com efeito de estufa. Aliás, o plano de recuperação económica de Portugal, apresentado recentemente, defende o investimento na ferrovia para substituir voos de curta distância (no território nacional e na ligação a Madrid).

Esta conjugação de fatores irá, pelo menos, adiar a urgência da construção de um novo aeroporto. Neste contexto, a insistência na solução outrora ditada pela urgência apenas poderá subsistir por teimosia ou por interesse político em promover uma imagem de recuperação económica que não terá, infelizmente, correspondência com a realidade.

Se antes a solução de construção de um aeroporto em Alcochete apenas esbarrava no argumento, aliás discutível, da urgência, agora cai por terra essa única justificação.

Conforme foi demonstrado pela generalidade das opiniões técnicas e científicas, a solução Montijo é pior que a de Alcochete.

A alternativa Montijo perde na comparação direta com Alcochete no impacto ambiental (incluindo as populações afetadas) e na longevidade do investimento. É equivalente no custo e no tempo de construção se for comparada com a solução faseada para Alcochete e apenas perde na acessibilidade.

Sucede que o contexto de disponibilidade financeira se alterou e a fazer fé na proposta de investimento em infraestruturas de transportes no âmbito do plano de recuperação económica é possível mobilizar recursos para este investimento.

Temos ainda a condição de o aeroporto do Montijo apenas ser viável no pressuposto do aumento dos movimentos na Portela e, ainda assim, com tempo de vida útil muito limitado e sem condições de ampliação.

A existência de um aeroporto no centro da cidade foi, durante muito tempo, justificada pela vantagem competitiva face a outras cidades europeias. As circunstâncias alteraram-se: por um lado, hoje é possível mitigar os inconvenientes de uma maior distância ao centro da cidade com meios eficazes de transporte. Por outro lado, o aumento dos movimentos na Portela veio agravar os danos para o ambiente, para a saúde pública e até os riscos para a segurança. Acresce que os padrões de exigência sobre a qualidade de vida urbana tornaram insuportável conviver com os inconvenientes de conviver com um aeroporto no meio da cidade.

Se a opção da construção de um novo aeroporto no Montijo era, antes da pandemia, no mínimo, discutível, hoje, a insistência nesta solução é injustificável. Esta é a oportunidade para pensar o desenvolvimento regional e nacional com outros pressupostos. A opção por Alcochete, ainda que temporariamente complementar à Portela, deve ser reconsiderada em nome de um planeamento a mais longo prazo, ambientalmente mais sustentável e estrategicamente mais competitivo.