Tautologias

A identidade roubada

De Salazar, eu sabia o que era preciso saber-se: nada. Era para mim um mal e um medo.

Nós e os outros, os homens e os outros... Peripécias históricas recorrentes fizeram com que no universo da política perdurasse, caricaturalmente, esse traço primitivo dicotómico. Roubamos a identidade ao ‘outro’. Inventamo-lo. E isto terá contribuído para o nosso atraso relativamente aos outros países europeus. Esse ‘outro’ Portugal que abriu caminhos ao mundo parece ter sido interrompido com o esbatimento dos genes de Aviz.

Repare-se como continua a haver um ‘Portugal fora’ e um ‘Portugal dentro’, com os portugueses que saíram a tornarem-se, regra geral, ‘outros’. Os exemplos são muitos, desde os ‘estrangeirados’ até hoje.

Cresci nesse Portugal político, num tempo em que o auge dum regime ditatorial agravou essa realidade antiga. Era um país politicamente a preto e branco, com as partes incomunicáveis. Nada nos ‘outros’ era sequer analisável, relativizável, explicável, compreensível, com matizes.

Os ‘outros’ eram uma massa indiferenciada. Eram coisas, seres petrificados com quem estava interdito o contacto. A visão era recíproca, e os que passavam essa fronteira, num lado e noutro, eram párias.

Foi assim que, no microcosmos da minha doce terra de província, laboratório privilegiado para observar essa realidade comum, me vi adolescente ‘inventado’ como um terrível e irrecuperável comunista. O nascimento traçara-me tal destino.

Um temperamento curioso e o gosto indagador viriam a sujeitar-me, no entanto, a reprimendas – pelo meu gosto de debater ‘questões que não se colocam agora’, ler autores que era perigoso ler e, pior ainda, atrever-me a falar e discutir com algum dos ‘intocáveis’ que, do outro lado, também passassem a fronteira.

Cresci, pois, num Portugal político que, no fundo, ainda não mudou. Ou não mudou que bastasse.

E assim o ditador – exemplo extremo dessa outra realidade paralela – foi sempre para mim apenas um fantasma, que assombrou alguma noite da minha juventude. Uma ‘coisa’ sem nada para perceber, proibido como objeto da curiosidade e da vontade de saber da minha humana inteligência. De Salazar sabia o que era preciso saber-se: nada. Era para mim um mal e um medo.

Entreguei-me cedo, felizmente, ao prazer de romper com esse confinamento, sendo justo dizer ter sido aparentemente irrelevante o preço que fui pagando por isso. E Salazar ficou como um resto inútil desse passado.

É significativo que só muito recentemente tenham começado a surgir livros a libertarem-se, de algum modo, dessa visão redutora de Salazar. Lembro-me da novidade (e, para alguns, do sobressalto) com que textos de Vasco Pulido Valente e, suponho, de Miguel Esteves Cardoso sobre o ditador e mesmo sobre Marcello Caetano foram recebidos.

E as obras apresentadas como ‘académicas’ ainda não se libertaram, quase todas, intencional ou inadvertidamente, daquela miséria.

Por tudo isso, ler o livro de José António Saraiva sobre Salazar – que juntando peças, testemunhos e factos dispersos reconstituiu laboriosamente aquela época – foi para mim uma novidade tardia. Salazar, afinal, tinha existido!