Opiniao

Refletir a covid-19 sem metáforas

Nunca na história do mundo com outras crises pandémicas já vividas e superadas a condição humana foi atingida por forma tão brutal, tão total, ao ponto de a vida social e os seus desenvolvimentos proativos serem interrompidos e anulados. A prática das relações humanas comuns ficou em suspenso, sem podermos fazer previsões sobre o dia seguinte e a retoma da normalidade.

por António Macieira-Coelho
Economista

Fechados em casa sem agir no mundo que nos rodeia, interrompidas as atividades recorrentes, sem contactos sociais, cada um reduzido à sua própria individualidade, pondo de parte, família, colegas e amigos. Como é possível? Como fomos atingidos com tal violência? Como surge um vírus de origem animal ameaçando a vida humana? Como subsiste persistentemente, perante a ignorância de o destruir?

Na implacável violência instalada, vive-se uma crise universal, dando realidade ao que nem uma ficção tenebrosa poderia conceber.

Muitas são as apreciações sobre um fenómeno cuja ação devastadora o saber científico está longe de entender. A inteligência humana – prova-se ao longo dos anos de existência planetária – acaba sempre por dominar o que surge para a destruir; mas as proporções deste mal avassalador atingem todas as consequências, num aporismo aberto a clamorosas interrogações.

Nunca na história do mundo com outras crises pandémicas já vividas e superadas a condição humana foi atingida por forma tão brutal, tão total, ao ponto de a vida social e os seus desenvolvimentos proativos serem interrompidos e anulados. A prática das relações humanas comuns ficou em suspenso, sem podermos fazer previsões sobre o dia seguinte e a retoma da normalidade.

Entretanto, multiplicam-se os textos e as habituais intervenções nos media, num aproveitamento deste acontecimento perverso com propósitos desadequados e repetidos. Os que se dedicam à escrita e os que dela vivem pretendem analisar consoante a sua formação este fenómeno. Além de uma patologia infecciosa mal conhecida, é opressiva a obrigação de a examinar num contexto fora do imediatismo – e, por isso, de apreciação compulsiva. A natureza humana vive hoje como nunca viveu, ontologicamente, a indeterminação de um fatalismo perverso.

Não há pensamentos virtuosos a que recorrer, não há teorias metafísicas explicativas, não há locubrações teológicas pouco ou nada decifráveis que nos revelem a real dimensão do que atingiu a humanidade. A existência humana constituía uma fenomenologia ontológica que não deixava prever, no século atual repleto de saberes, a distopia violenta, deixando incerto um novo reequilíbrio na vida e sua completude.

Em diversos momentos da sua longa história. a existência humana tem sofrido traições, pestes, crises, guerras, violências, destruições. Quando se exalta a longevidade que hoje se atinge no envelhecimento ou na senescência dos órgãos, não se podia suspeitar como um vírus implacável destrói os resultados promissores que a ciência tem trazido para a vida do homem. Por isso, considero inaceitável teóricos presumidos de diferentes origens, no feminino e no masculino, fazerem afirmações espúrias e descabidas sobre a situação. Resumo algumas e do mais diverso teor: «combater o medo da morte», «a má experiência da globalização», «pôr em causa a globalização», «testar o modelo de desenvolvimento», «a pandemia do medo». Até ouvi uma especial responsável (que por delicadeza não nomeio) dizer na televisão que «o vírus era muito inteligente», quando os vírus não são organismos vivos. Sozinhos não se reproduzem: fazem-no por infeção de células vivas humanas.

É imprescindível, depois de dominada esta calamidade, estudar as doenças raras – principalmente as provenientes da vida selvagem. Isto é, estudar as doenças da população animal instaladas em organismos patogénicos e introduzidas na população humana por zoonose. Este é um facto novo.

Noutro enquadramento, os meios financeiros serão retomados para pôr novamente em marcha os circuitos económicos. A União Europeia aprovou esta semana um pacote de 750 mil milhões de euros destinados a minorar os efeitos económicos provocados pela pandemia. Portugal receberá, para já, 15,3 mil milhões a fundo perdido, podendo aceder a empréstimos e vendo reforçados outros fundos.

As economias europeias têm de repor a normalidade, salvaguardando dentro das regras da União a ajuda financeira para cobrir o endividamento público dos Estados atingidos pela paralisação generalizada. Criar a liquidez suficiente na vida económica e retomar o seu percurso, considerando os prazos adequados para a sua ‘ressurreição’. Sim, utilizo o termo exato!

É uma incongruência chamar-lhe Plano Marshall. Este auxílio financeiro veio dos Estados Unidos no pós-guerra mundial para reconstruir a Europa destruída por, essa sim, uma verdadeira guerra que os homens provocaram e da qual, com clarividência, nós portugueses ficámos de fora.

Raciocínios inteligentes e capacidade de liderança – económica e política – nunca foram tão necessários como agora, em que tudo foi posto à prova.

Num passo a seguir virá uma nova reorganização social no quadro da vigilância biomédica e uma nova organização económica incluindo os modelos do teletrabalho e da digitalização. Sem futurologias demagógicas face a um horizonte de névoas, aguardemos que tudo se restabeleça, e voltemos a viver com a esperança de uma longa vida terrestre a que todos têm direito. A vida é uma relação ôntica de nós com os outros. Assim se estabeleceram sempre as relações espirituais e as trocas sociais, sejam quais forem as suas origens e o que delas resulta.

Os jovens, como sempre, terão cada vez mais o seu papel na inovação, na ciência, nos novos conhecimentos, no deslumbramento da nossa existência de seres humanos, de que não abdicamos.