No Meio de Nós

Medir todas as palavras

Imagine-se que há quinhentos anos a basílica de São Pedro se tinha convertido numa mesquita. Sim, a basílica que estamos habituados a ver na televisão nas principais celebrações, onde vive o Papa. 
Imagine-se que por causa das disputadas religiosas se converte a basílica de São Pedro num museu, para não dar a posse religiosa nem aos muçulmanos nem aos católicos. 

O Presidente Turco, Recep Tayyip Erdogan, abriu o espaço museológico da Santa Sofia, em Istambul, para o culto muçulmano. O que é que está em causa neste ato aparentemente inédito na modernidade? Porque é que houve um silêncio quase total da Santa Sé? Porque é que o mundo tem os olhos postos neste ato de reconversão do espaço de Santa Sofia ao culto muçulmano – o mesmo é dizer, converteu em Mesquita?
Temos de ter muito claro que Santa Sofia sempre foi um espaço religioso. Só desde 1934 é que se tornou um museu, com o Presidente Ataturk, fundador do Estado Turco Secular – separado da religião. 
Mas qual é realmente o problema que está no centro de toda esta polémica? É por se converter um museu numa mesquita? 
Não! O centro do problema está na história e na carga religiosa e política que Santa Sofia encerra. A cidade de Istambul é na realidade a conhecida cidade de Constantinopla, centro da Igreja Ortodoxa.
Há dois centros principais na cristandade: Pedro e André. Nas Sagradas Escrituras diz-se que Jesus chamou André e Pedro, que eram irmãos. Pedro é o primeiro Papa, bispo de Roma e cabeça do Catolicismo. André, irmão de Pedro, veio a ser a cabeça da Ortodoxia através do bispo de Constantinopla. 

No século VI d.C houve a construção de uma basílica em Constantinopla, tal como em Roma foi construída a basílica de São Pedro. Durante mil anos (até ao século XV) a referida basílica de Santa Sofia serviu de catedral para o bispo de Constantinopla. No século XI deu-se a separação entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa e o bispo de Constantinopla tornou-se numa espécie de Papa para toda a Ortodoxia – aliás ele é o Patriarca. Quando houve a invasão Otomana, em 1453, a basílica de Santa Sofia passou a servir como mesquita e isto durante quinhentos anos. 
Na realidade, Santa Sofia foi mesquita nos últimos cinco séculos. 
Provavelmente para nós, católicos, esta história tem um peso muito diminuto. Aliás, nós até estamos habituados, nos últimos anos, a ver igrejas transformadas em ginásios, livrarias, condomínios privados, restaurantes, etc.
Porém, se começarmos a ver as coisas de um outro prisma poderemos perceber porque é que esta ação do Estado Turco se torna tão controversa. 
Imagine-se que há quinhentos anos a basílica de São Pedro se tinha convertido numa mesquita. Sim, a basílica que estamos habituados a ver na televisão nas principais celebrações, onde vive o Papa. 
Imagine-se que por causa das disputadas religiosas se converte a basílica de São Pedro num museu, para não dar a posse religiosa nem aos muçulmanos nem aos católicos. 
Imagine-se que ao fim de todo este tempo de relativa paz se converte novamente numa mesquita.
É isto que está no centro da problemática!
Precisamos de olhar para este acontecimento com os óculos de um fiel, cristãos, ortodoxo.
Se nos acontecesse algo semelhante com o centro do catolicismo, isso seria uma dor para todos nós.

É evidente e não tenho a menor dúvida de que haverá sempre sofrimento para quem quer que seja. 
Se se converte numa mesquita, sofrem os cristãos. Se se convertem numa basílica, sofrem os muçulmanos.
Por isso, se tinha encontrado no passado esta solução de tornar um espaço espiritualmente neutro.
É curioso o silêncio da Santa Sé e a expressão do Papa: Estou muito triste, disse. Isto porque mostra como é difícil gerir do ponto de vista político, mas acima de tudo do ponto de vista religioso todo este embaraço. 
Penso que a Santa Sé foi prudente e o Papa foi suficientemente claro: há algo que estamos a assistir e que precisamos de ter as palavras todas medidas.