Contra a Corrente

A partir do zero

O mercado único e a economia de mercado não nos irão autorizar a produzir os alimentos portugueses. Teremos de os comprar lá fora, onde são produzidos mais baratos.

O país oficial (e não só) exultou com a fantástica obtenção de cerca de 45 mil milhões de euros a virem da UE para ‘gastar’ nos próximos 7 anos. É quase o dobro daquilo que Portugal recebeu anualmente nos últimos 31 anos. José António Saraiva (JAS) chamou a Portugal «uma máquina de derreter dinheiro», enunciando os milhares de milhões das privatizações, o proveito de 483 toneladas de ouro das reservas vendido, os 122 mil milhões recebidos de Fundos europeus e os 250 mil milhões da dívida externa.

Como resultado de tudo isso, ficámos sem agricultura, sem indústria, sem qualquer ‘marca’ portuguesa; por termos sol e não termos burguesia empreendedora (só rentistas!) ficámos reduzidos ao turismo, isto é, a servir à mesa, lavar os lençóis e sorrir aos estrangeiros que cá vêm usufruir da natureza e da criadagem.

JAS referiu-se aos custos da democracia. E acrescentou: «Mas convém não abusar»…

Sim, a nossa ‘democracia’ vai durar, pelo menos, até 2027, enquanto houver ‘massa para derreter’…

Diz-se que agora será diferente: ‘finalmente’ temos um Plano, o Plano Costa e Silva (um novo Michael Porter?). Li-o; é um papel interessante; podia haver mais 20, todos igualmente ‘criativos’, redigidos por pessoas igualmente capazes; como alguém disse, um misto de Borda d´Água e de Nebulosa de Andrómeda (um livro de ficção científica); como estou a viver em Mangualde, perto de Viseu, gostei especialmente daquele projeto da ‘Mobilidade Inteligente’ centrado nesta cidade, onde existem grandes avenidas cheias de rotundas, lugares de estacionamento e ciclovias, isto é, onde se ‘derreteu’ o dinheiro dos anos anteriores. Agora, pretende-se desenvolver e ‘vender’ essa mobilidade inteligente para o mundo inteiro, no mercado internacional! Não brinquemos…

Não, amigos, o que existe é um Mercado Único, uma Economia de Mercado (não regulada!), pelo que a maioria desses 45 mil milhões servirão para comprar produtos e serviços lá fora, a quem os já tem, tal como aconteceu, há uns anos, com os projetos de cooperação em países subdesenvolvidos. Lembro-me que, na década de 1980, de um projeto de modernização rural em Moçambique, no montante de milhões de dólares, ficou no país, no final do projeto, um galo de raça frustrado com a falta de galinhas…

O mercado único e a economia de mercado não nos irão autorizar a produzir e comer os alimentos portugueses; teremos de os comprar lá fora, onde são produzidos (e transportados) mais baratos; Não irão permitir-nos desenvolver e colocar nas nossas instituições software ajustado às nossas particularidades; teremos de comprar esses produtos, como ‘pronto a vestir’, a empresas estrangeiras. Estas, quanto muito, poderão subcontratar algumas peças acessórias a ‘startups’ de jovens portugueses. E assim por diante, em todas as áreas consideradas estratégicas para a ‘Europa’ nesta nova fase de aprofundamento da Revolução Neoliberal pós-covid.

O dinheiro será distribuído, justamente, por quem ‘for devido’, com transparência e eficácia. Continuaremos a ser ‘bons alunos’ e… criados de servir…

Até que, os nossos filhos ou netos tenham de acabar com esta República, não sei se mesmo com a democracia, e recomeçar Portugal A Partir do Zero.

Nessa altura, porém, será conveniente que o que ainda nos sobra de reservas de ouro (382,5 tons) esteja sediado em Portugal e não no Banco de Inglaterra ou na Reserva Federal Americana. Caso contrário ainda os ingleses e os americanos vão ficar com elas dizendo que só quem pode mexer nelas é um qualquer Guaidó português do momento…