Economia

"Os turistas deixaram de vir porque pensaram: aquilo em Lisboa está perigoso"

Para o presidente da AHP, Raul Martins, houve um má comunicação do Governo no desconfinamento e isso refletiu-se nos cancelamentos de novas reservas que tinham sido feitas para julho.

Nestes tempos tão complicados, que análise faz do setor?

O setor do turismo está a atravessar a maior crise deste século e tornou-se no setor mais prejudicado por esta pandemia, porque o turismo é baseado na deslocação para outros sítios e na proximidade das pessoas. Se há falta de condições de segurança na deslocação e nos locais, naturalmente o setor torna-se o mais atingido. E a situação é grave em todo o mundo. Há países que ainda estão fechados ao turismo – é o caso da Tailândia – e há muitos países que estão muito mais confinados do que Portugal.

As medidas que têm sido implementadas ajudam a minimizar esse impacto?

Este setor está muito dependente das condições de propagação do vírus. Portugal teve uma fase inicial boa, mas depois tivemos uma fase de desconfinamento má – para não dizer péssima –, porque as autoridades não controlaram o desconfinamento. Passámos quase de 8 para 80. Devia ter sido controlada a situação dos transportes públicos, que foram utilizados sem distanciamento, o que contribuiu para ser um fator de propagação e que se sentiu mais na zona de Lisboa, onde há mais população ativa e que se desloca mais. O Governo vem agora dizer que não há evidência que tenha havido transmissão nos transportes, claro, se não sabemos onde é que o vírus está. Até ao desconfinamento as pessoas não podiam sair, quando é que aumentaram os casos outra vez? Quando houve o desconfinamento, quando houve mais pessoas a utilizarem os transportes e foi isso que mais contribuiu para a propagação. Isto para o turismo e para a hotelaria trouxe um impacto muito negativo. Havia hotéis que tinham novas reservas para julho e não puderam abrir porque tiveram uma quebra de 70% nas novas reservas. Não podia ter sido pior e, na altura em que foi.

Numa altura de marcação de férias...

Claro, se fosse em janeiro não teria mal nenhum.

Como vê a decisão do Reino Unido ao impor um período de quarentena para quem viaja para cá?

Tem-se falado muito mal do Reino Unido sem razão, porque estamos piores do que o Reino Unido. O Reino Unido começou mal, não teve medidas de confinamento e fez com que tivesse um número de mortes no início muito elevado. A Inglaterra tem quatro vezes mais mortos por 100 mil habitantes do que Portugal. É o quarto país do mundo com pior número de mortes por 100 mil habitantes porque ao princípio não confinou. Mas quando foi para decidir a deslocação dos ingleses foram ver os últimos 14 dias de registos de casos dos vários países. Portugal tem agora uma média de 200, enquanto eles têm uma média de 500. Mas eles são seis vezes maiores do que Portugal. Se nós temos 200 eles poderiam ter 1.200. Ou para eles terem 500 nós deveríamos ter menos de 100. Eles utilizaram cinco critérios para tomarem a decisão e um deles foi este. Os ingleses estão cheios de razão porque Portugal não entrou num destes cinco critérios. Veja o que aconteceu a Espanha. Espanha aumentou e eu pensei: ‘Sempre estou para ver se eles vão tratar Espanha da mesma maneira’. No dia seguinte estavam a tratar.

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa do SOL. Agora também pode receber o jornal em casa ou subscrever a nossa assinatura digital.