Pátio das Cantigas

O (mau) estado da Nação

O pior é que não foram só as bancadas parlamentares que mudaram. O Presidente também mudou e, em lugar de árbitro, aliou-se ao Governo. O episódio da Autoeuropa ilustra bem esse ‘estado de alma’, quando consentiu que António Costa se antecipasse no ‘lançamento’ da sua recandidatura.Depois disto, o que sobra para Rui Rio é pegar no ‘andor’ e incensá-lo na procissão de regresso ao trono de Belém.

 

O estado da Nação promete. Não tanto por aquilo que foi dito há uma semana no Parlamento, sem muito de novo, nem sequer pelo ‘namoro’ ensaiado, novamente, pelo primeiro ministro com os partidos à sua esquerda, um idílio que já conheceu melhores dias. 

O verdadeiro diagnóstico do País, não consta, tão-pouco, no relatório para a década, elaborado, em contrarrelógio, pelo ‘consultor externo’ do Governo, embora contenha pistas que seria útil não desprezar.
Lembra, por exemplo, que a administração pública é "pouco criativa, orientada a ‘pareceres’ e não a decisões, processos e resultados", e, mais grave, reconhece o "estado comatoso da economia", tendo em conta "a dimensão da crise e a subcapitalização das empresas portuguesas".

Adicionalmente, António Costa Silva toca numa evidência esquecida – "todos os países do euro, sem exceção, têm a maioria dos bancos, dos seus ativos e poupanças, em instituições de base nacional e local, mas Portugal tem a banca controlada por outro país". Um facto que tem passado ao lado dos media. 

Seria natural que a oposição escalpelizasse estes e outros alertas. Em vez disso, cala-se, em nome de uma ‘conveniência’ nacional postiça, forjada com a cumplicidade de Rui Rio, um líder perdido no seu vazio de ideias.
A inexistência de uma oposição capaz e fiscalizadora, permite ao Governo atuar em ‘roda livre’, encostado a uma ‘geringonça’ refém do ‘pecado original’, e à popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa, obcecado com a sua reeleição por uma maioria superlativa. 

 

O PSD definha nas sondagens e parece resignado ao ‘quarto das traseiras’, onde está ‘confinado’. 

Rui Rio prestou-se a um ‘frete’ sem paralelo na história recente, ao propor a eliminação dos debates parlamentares quinzenais, livrando o primeiro-ministro de um escrutínio fundamental, sobretudo em época de crise. E ainda teve o topete de explicar o gesto com o objetivo de "credibilizar o Parlamento". Um disparate para disfarçar a ‘vassalagem’.
Com o PSD neutralizado, não admira que cresçam à sua direita a Iniciativa Liberal e, principalmente, o Chega, que já aparece empatado com o Bloco nas ultimas sondagens. E, talvez seja esse o ‘busílis’ do raciocínio de Rio. 

Convirá recordar que André Ventura conhece bem o PSD, com o qual rompeu em 2018, renunciando ao cargo de vereador na Câmara de Loures. Por essa altura, já se queixava do "calculismo" da liderança de Rui Rio e estranhava que o partido estivesse a trilhar "um caminho de alienação e submissão à esquerda". Não se enganou. 

Por isso, o Chega tem vindo a conquistar pontos, e já incomoda a esquerda comunista. A vandalização dos seus outdoors é um sinal disso. 

A ascensão de Ventura corresponde à desistência de Rio. A transferência de desiludidos do PSD favorece-o. E o CDS não lhe faz mossa.

Esta mudança de paradigma tem antecedentes. Em maio de 2019, a seguir à eleições europeias, já Marcelo Rebelo de Sousa antevia um provável afundamento do PSD e CDS, ao admitir "uma forte possibilidade de haver uma crise na direita", enfatizando "o papel do Presidente no quadro do equilíbrio de poderes (…)". 

 

As legislativas seguintes confirmariam o declive. O pior é que não foram só as bancadas parlamentares que mudaram. O Presidente também mudou e, em lugar de árbitro, aliou-se ao Governo. 

O episódio da Autoeuropa ilustra bem esse ‘estado de alma’, quando consentiu que António Costa se antecipasse no ‘lançamento’ da sua recandidatura.

Depois disto, o que sobra para Rui Rio é pegar no ‘andor’ e incensá-lo na procissão de regresso ao trono de Belém.

 

No meio destes ‘jogos cruzados’, há um susto que traz a Nação em sobressalto, mesmo que use disfarces. 

A emergência marcou o país com cicatrizes profundas: desemprego e dívida pública galopantes, empresas falidas, turismo nos mínimos, agravamento do crédito malparado, famílias insolventes, quebra nas exportações, e o investimento público e privado nas ‘encolhas’. 

O rol é extenso e sempre incompleto, desde as fragilidades do sistema financeiro ao ‘rombo’ da Segurança Social, assente numa máquina burocrática gigantesca e sujeita a uma erosão sem paralelo , que ameaça ‘gripar’, se não lhe deitarem a mão a tempo. 

É neste contexto sombrio que se anunciam as finais do Champions, ou o regresso da Fórmula 1 ao Algarve, além da repetição da Web Summit de um irlandês esperto, e da incontornável Festa do Avante!, alheia ao exemplo da congénere francesa, que cancelou os seus eventos. 

Há nisto uma espécie de comportamento bipolar. De um lado, o país aflito e dos aflitos, dependente do apoio europeu como do ‘pão para a boca’; do outro, um país eufórico, com ‘circo’ variado e transferências milionárias, no futebol e nas televisões.

 

Como perceber este estado de coisas, quando o que mais se expande é o Banco Alimentar?

Com a oposição em ‘coma induzido’, o primeiro-ministro foi ao Parlamento contar a sua versão ‘cor-de-rosa’ da história, e ainda lhe sobejou tempo para achincalhar Rui Rio, a pretexto do hidrogénio, apesar do serviço que o líder do PSD lhe prestara na véspera, ao libertá-lo da maçada de comparecer, quinzenalmente, no hemiciclo.

Se a bancada do PSD foi uma sombra neste debate, a do PS repetiu, como lhe competia, o papel de "repartição do Governo", segundo um dos seus deputados. O estado da Nação lembra uma casa assombrada, vistosa por fora e arruinada por dentro, com fantasmas escondidos nos armários…

 

Nota em rodapé – Um júri internacional de ‘notáveis’, presidido por Jorge Sampaio , não encontrou melhor solução para o Prémio Gulbenkian para a Humanidade, do que atribuí-lo a uma jovem ‘ativista’ sueca, de atributos discutíveis, mas que ‘caiu no goto’ dos media, graças à ‘causa’ das alterações climáticas. Guterres, que esteve na “calha” para a Fundação, também abraçou a mesma causa, numa caricata capa da Time, de fato e gravata, com água pelos joelhos…
O júri ‘confinou-se’ num trabalho preguiçoso, cedendo ao populismo na moda. E a Gulbenkian, para espanto de muitos, ‘surfou a onda’ e vai desembolsar um milhão de euros para financiar o epifenómeno, aliás, já em merecida curva descendente. 

Os pais da menina Greta só podem estar felizes com o inesperado jackpot e agradecer à Gulbenkian tanto dinheiro. Que este sirva, ao menos, para completar a formação interrompida da adolescente, que prometeu voltar à escola. Estão de parabéns!