Internacional

Beirute. Uma cidade traumatizada

A raiva cresce em Beirute, que enfrenta uma gigantesca explosão no meio de uma crise económica, de uma pandemia e de tensões sectárias.

Beirute, em tempos conhecida como Paris do Médio Oriente, juntou a devastação em redor do seu porto às cicatrizes da guerra civil. Cerca de 2,75 mil toneladas de nitrato de amónio, utilizado no fabrico de fertilizantes e explosivos, armazenadas no porto desde há seis anos, aparentemente esquecidas por negligência, rebentaram na terça-feira. Para os libaneses, a sensação é de maldição: a catástrofe surge quando enfrentavam uma brutal crise económica, com escassez de alimentos, pelo meio da segunda vaga da pandemia, enquanto as várias milícias libanesas tinham as armas apontadas umas às outras: esperava-se o veredicto de quatro membros do Hezbollah, acusados de assassinar à bomba o antigo primeiro-ministro Rafic Hariri.

«É avassalador», resume ao SOL Fadi El-Jardali, perito em Saúde Pública da Universidade Americana de Beirute. «É um cenário que poderemos nunca encontrar noutro lugar, que um país tão pequeno como o Líbano seja atingido por tantas crises tão trágicas e tão diferentes». Estima-se que tenha sido a maior explosão não-convencional da história, com uns 10% da potência da bomba atómica de Hiroshima, que fez mais de 150 mortos, com pelo menos outros cinco mil feridos. «E temos muitos desaparecidos», salienta El-Jardali.

Face à maré humana que os invadiu, é difícil imaginar quão assoberbados estão os serviços médicos e de emergência de Beirute. «Temos quatro ou cinco hospitais completamente inoperacionais neste momento, foram atingidos muito duramente, tiveram de evacuar os seus pacientes», conta o perito da Universidade Americana de Beirute. «Perdemos cerca de 500 camas nos cuidados intensivos».

Há tetos de urgências a desabar, vidros partido por todo o lado, equipamento destruído, profissionais de saúde, pacientes e visitantes mortos. Mas também atos de incrível heroísmo, como o caso de uma enfermeira que acorreu à unidade neonatal do hospital de São Jorge, uma dos mais castigados, para resgatar três recém-nascidos: foi fotografada com os três bebés nos braços e o telefone na mão, enquanto pedia auxílio.

Com os cuidados intensivos a abarrotar por toda a cidade – incluindo no hospital de El-Jardali, o Centro Médico da Universidade Americana de Beirute – o maior da capital, muitos profissionais de saúde viram-se forçados a triar ou cuidar dos feridos na rua, na entrada de hospitais ou em parques de estacionamento. Tudo isto em tempos de covid-19.

«Por causa da explosão, muitas pessoas não conseguiram cumprir com os protocolos para a covid-19. Num momento de crise, tens de responder muito rapidamente para salvar vidas», lamenta El Jardali. «Desde a explosão, estamos a testemunhar um aumento significativo de positivos à covid-19, os números diários estão a duplicar, se não mais».

 «Em fevereiro, quando quando tivemos o primeiro positivo à covid-19, o Líbano teve sucesso ao conseguir conter e suprimir o vírus, até certo ponto», recordou. «Com a crise económica, as pessoas começaram a ficar fatigadas, a cumprir menos. Há umas semanas começámos a ver a segunda vaga», continuou o perito em Saúde Pública. «Lembre-se que esta semana era suposto estarmos em confinamento, como decidiu o Governo, todas as lojas deviam estar fechadas. Com a explosão, é impossível aplicar essas medidas. Pode imaginar o que vai acontecer».

Fúria e solidariedade

Nas ruas de Beirute, além da dor, sente-se uma raiva palpável. Apesar das autoridades terem anunciado a detenção de 16 funcionários do porto de Beirute, numa altura em que o hashtag «pendurem os nós de forca» é dos mais populares no país, nota-se cada vez mais a ausência do Estado: já há mobilizações para protestos este sábado à tarde.

«Eles pensam que se vão safar», explicou Ali Fadlallah, um engenheiro que mora no sul de Beirute, ao Guardian. «Desta vez não vão, nenhum deles», prometeu. 

Há muito que fermenta o descontentamento com particular sistema político do Líbano, cujas várias confissões religiosas – sunitas, cristãos maronitas, xiitas, drusos – dividem desconfortavelmente o poder.
Ainda no ano passado houve protestos massivos, considerados únicos na história libanesa, talvez os primeiros que juntaram gente com as mais diversas orientações religiosas, unidas pelo ódio à desigualdade, à corrupção e clientelismo das diferentes fações. As autoridades aproveitaram a pandemia para os reprimir violentamente, mas talvez agora isso não chegue.

«Infelizmente o nosso Governo não é capaz e temos um sistema político corrupto. Mas, ao mesmo tempo, temos a resiliência da comunidade», garante El-Jardali. «Temos organizações não-governamentais, temos a sociedade civil,

temos comunidades que acreditam neste país», enumera o perito da Universidade Americana de Beirute. «Digo-lhe, sinceramente, essas são as pessoas que vemos agora nas ruas, que estão a ajudar com os esforços para resgates e auxílio».

Uma dessas pessoas é Maria Sfeir, presidente da Juventude Mariana Vicentina do Líbano, uma organização de apoio social cristã também presente em Portugal. Com mais uns 40 ou 50 jovens, Maria está nas ruas de Beirute, a tentar ajudar alguns dos cerca de 300 mil desalojados da cidade a limpar os destroços, reparar o que seja possível reparar, para que possam voltar a casa.

«Claro que temos medo da covid-19», diz Sfeir ao SOL. «Estamos a tomar todas as precauções, a usar máscaras, manter-nos afastados das pessoas tanto quanto possível» , assegura. «Ao mesmo tempo, a verdade é que não conseguimos ver a covid-19. Mas vemos pessoas que precisam de ajuda».

Impactos a longo prazo

Não é só a covid-19 que assusta os libaneses. O Governo assegura que o motivo da explosão foram toneladas e toneladas de nitrato de amónio: a Greenpeace já avisou que a enorme nuvem laranja nos céus da cidade pode interagir com a atmosfera para criar uma fuligem tóxica.

«Os impactos vão depender da concentração de substâncias danosas produzidas, juntamente com a quantidade depositada nas superfícies e devolvida ao ar como resultado das operações de limpeza», explicou a organização ambientalista, num comunicado citado pelo An-Nahar. O jornal libanês apelou a que crianças, idosos e pessoas com dificuldades respiratórias se mantenham dentro de casa, caso seja possível.

«Todos os que vivem no Líbano estão muito preocupados, todos temos medo disso», lamentou El-Jardali. «Há muito pouca transparência quanto ao fumo que está no ar, porque há uma investigação a decorrer». Mas este nem sequer é o único receio quanto a efeitos a longo prazo da explosão. Afinal, tratou-se de um estrondo tão grande que se ouviu do outro lado do Mediterrâneo, em Chipre, a mais de 200 km de distância. Teme-se que Beirute sofra de uma vaga de pessoas com surdez ou outros problemas auditivos.

«Eu mesmo estou a sentir isso, estou a demorar muito a recuperar», refere o perito de Saúde Pública, que, como todos os habitantes de Beirute, sentiu na pele a explosão. Estava a atravessar a estrada, numa rua nos arredores da sua universidade, quando deu por si projetado no ar, sem saber o que se passava, pelo meio dos estilhaços da montras. «Quando olhei para onde estava, vi que estava tudo destruído. Sinto-me muito sortudo. Mas não há dúvida que é traumático», conta.

«Vivi toda a guerra civil no Líbano, desde os anos 70, e nunca na minha vida vi ou ouvi algo como isto. Seja nos efeitos para a audição ou para a saúde mental», garante El-Jardali. «Muitas pessoas já têm dificuldade a dormir, ainda sentem e ouvem o barulho nos ouvidos. Eu estou a experienciar isso agora».

Claro que nos próximos tempos será impossível mapear esse género de impactos: ainda há demasiados pessoas a lutar pela vida, demasiados entes queridos desaparecidos debaixo dos escombros. Isto quando o país enfrenta uma escassez de bens médicos, acrescenta o perito da Universidade Americana de Beirute.

«Não se esqueça que o Líbano importa mais de 60% dos seus materiais médicos. Nas últimas semanas já tivemos dificuldades devido à crise financeira, pela falta de dólares frescos», salienta. «E agora temos o maior porto do Líbano completamente destruído pela explosão». Algo que não afeta apenas o acesso a medicamentos, como a própria segurança alimentar do país. Os enormes silos que se veem nas imagens do porto, totalmente devastados e fumegar, eram onde costumava ser armazenado cerca de 85% dos cereais do Líbano. 

Ainda assim, no meio da devastação e da perda, a ajuda internacional começa a chegar. O próprio Presidente de França, Emmanuel Macron, visitou a capital libanesa, prometendo ajuda e fundos para a reconstrução – mas garantido que estes «não vão parar a mãos corruptas». Também Portugal já disponibilizou 42 agentes para os trabalhos de emergência, num esforço a que se juntaram muitos outros países.

«Vemos muitos aviões a aterrar no Líbano, a trazer ajuda, mas espero que não seja apenas a curto prazo. Esta explosão requer uma resposta de longo prazo para a recuperação», apela El-Jardali. Seja como for, talvez Beirute, já ferida por tantos anos de guerra e crises, nunca volte a brilhar da mesma maneira. «Isto foi a destruição de uma cidade. Beirute está destruída, tão simples como isso».