Contra a corrente

A situação estratégica mundial

Acabei de reler há dias o livro A Crise do Capitalismo: Capitalismo, Neoliberalismo, Globalização, de António Avelãs Nunes (AAN). É um livro brilhante que esclarece detalhadamente a evolução do Capitalismo desde a fase de hegemonia do capital produtivo (industrial e comercial), até à sua fase atual, caracterizada pelo domínio absoluto do capital financeiro à escala global.

Eu só acrescentaria que, em vez de se referir ao ‘neoliberalismo’, se deveria referir ao neofeudalismo, isto é, a um ‘sistema’ que, no plano económico, se caracteriza pelo domínio de uma classe parasitária (’capitalistas financeiros’) vivendo da extração de Tributos (juros, dividendos e rendas) aplicados coercivamente sobre todas as atividades sociais (produtivas e institucionais), acompanhado de um sistema de dominação política ‘em cascata’, tal como antes (no feudalismo) se passava entre Senhores e Vassalos.

A atual situação estratégica mundial, incluindo o fenómeno Trump e a ‘travagem acelerada’ da globalização, bem como os preparativos para um dramático enfrentamento (eventualmente militar e nuclear) entre atores mundiais só poderão ser bem compreendidos se se entender bem o ‘ponto de partida’ que o livro de AAN bem caracteriza.

A indústria financeira tem algumas ‘grandes fábricas’ à escala planetária cujos ‘níveis de potência’ vão desde a ‘Wall Street’ novaiorquina à ‘City’ londrina, passando depois para a média dimensão do centro financeiro ‘europeu continental’ (Frankfurt?) e do ‘asiático-chinês’ (Hong Kong …). O resto é paisagem, meras sucursais.

A velocidade de crescimento e acumulação de capital na China e, atrás desta, na Ásia em geral, acompanhado pelas iniciativas da ‘Rota da Seda’ e dos BRICS (designadamente a diminuição do papel do dólar como moeda internacional de trocas) tenderão a levar a indústria financeira ‘asiática-chinesa’ ao nível das maiores, com capacidade para se tornar hegemónica a médio prazo.

O ‘trumpismo’ não é mais do que a tentativa de suster e inverter um processo de globalização que se verificava altamente favorável à China, e à recuperação de uma capacidade própria norte-americana, o ‘America First’. Do mesmo modo como o Brexit foi o caminho que o Reino Unido (RU) seguiu para poder conservar a ‘fábrica da City’ como uma referência mundial, já que a UE, nesse campo, constitui um mero fardo retardador.

Assim, as ‘alianças estratégicas’ (ou cadeias de poder estratégico) incluem, de modo muito sintético:

a. Os EUA, com a sua ‘recuperada’ América Latina, coadjuvados pelo RU, e pelos vassalos Canadá, Austrália, Japão e Coreia;

b. A China, coadjuvada pela Rússia, a que se juntam os países da Organização de Xangai (Eurásia);

c. A ‘Europa’, que vacila entre a completa submissão ao bloco EUA-RU e uma posição autónoma com ligações a todos (inc. China e Rússia);

d. A Índia, que vacila entre uma maior integração asiática (Organização de Xangai) e uma aliança com o ‘Ocidente’ (de quem depende em grande medida), para a ‘contenção’ da China.

Neste quadro, se o bloco indicado em a) conseguir ‘avassalar’ a ‘Europa’ e a Índia, aumentam bastante as probabilidades de que queira provocar um enfrentamento armado total com o bloco b), no qual a ‘Europa’ será fisicamente sacrificada, isto é, aniquilada; se a ‘Europa’ e a Índia se mantiverem como ‘equilibradores das forças globais’, a Humanidade poderá entrar na ‘Era do Compromisso’ e do Desenvolvimento Pacífico e Partilhado.