Internacional

Uma nova era na exploração do espaço

A SpaceX, de Elon Musk, juntou-se ao exclusivo clube com capacidade de levar e trazer tripulantes do espaço. Face a ameaças de cortes na NASA, teme-se a privatização do espaço. 

Durante 63 dias dois astronautas da NASA, Bob Behnken e Doug Hurley, escaparam ao caos que se vive no planeta Terra para a missão Demos-2, ficando hospedados na Estação Espacial Internacional (EEI). A sua cápsula, batizada de Endeavour, amarou no Golfo do México, no domingo, finalizando com sucesso uma viagem histórica: foi a primeira vez que uma empresa privada, a SpaceX, encabeçada por Elon Musk, conseguiu levar e trazer tripulantes do espaço. Juntou-se a um estrito grupo de entidades com capacidade para o fazer, nomeadamente os estados norte-americano, chinês e russo. "Bem-vindos de volta à Terra e obrigado por voarem na SpaceX", ouviram os astronautas no rádio, logo após aterrarem, segundo a Forbes.

A mensagem, que não destoaria muito no final de um voo comum na aviação comercial, é o início de uma nova etapa na exploração espacial: a SpaceX já prometeu lugares a bordo para o turismo, quem sabe até hotéis no espaço – disponíveis exclusivamente para os muito ricos, claro. "Vamos para a Lua, vamos ter uma base na Lua, enviar pessoas para Marte e tornar a vida multiplanetária", prometeu Elon Musk no Twitter, esta semana: a SpaceX acabara de bater a Boeing na corrida para ser uma espécie de táxi para a Estação Espacial Internacional.

Já a NASA, que cobra 35 mil dólares por cada noite a bordo da EEI, e que treme sob a ameaça de privatização e cortes no seu financiamento pela Administração de Donald Trump, respirou de alívio com a aterragem suave da Endeavour. "Isto não vai ser um empreendimento que faça a NASA ter lucro, de todo", explicou o responsável financeiro da organização, Jeff DeWitt, citado pela Atlantic, numa conferência de imprensa o ano passado. "Mas pode ajudar a custear despesas".
Entre as celebrações, não deixa de haver preocupação com o início da privatização do espaço. Teme-se que ponha de lado a preocupação científica em prol do lucro, a cooperação entre cientistas  pela competição entre gigantes multinacionais.

"Nós compreendemos que aprender sobre o Universo é bom para a nossa sociedade", lembrou Robert Frost, instrutor e controlador de voo na NASA, numa parceria entre a Quora e a Forbes, há uns anos atrás. "Nós compreendemos que o conhecimento tem valor em si mesmo. Muitas vezes não conseguimos prever como esse conhecimento pode ter um valor prático adicional mais tarde", salientou. "Este género de exploração simplesmente não é prático para o setor privado, porque, a curto prazo, não há maneira de terem retorno do seu investimento". 

 

Uma viagem complicada 

Quando se diz que a aterragem foi suave, é relativo. Depois de 18 horas a vaguear na órbita da Terra, a Endeavour ligou os propulsores para reentrar na atmosfera, enfrentando temperaturas de cerca de 2 mil ºC. Operadores de rádio aguardaram nervosamente, durante seis minutos sem comunicações, impossibilitadas pelos escudos de plasma que protegiam a cápsula. Até que o pior passou  e foram abertos os paraquedas, dando início à lenta descida até à água, ao largo da Florida.
Mas esse não foi o ponto menos preocupante da viagem – até pelo contrário. "Os paraquedas são muito mais difíceis do que parecem", notou Elon Musk, dias antes do lançamento da missão, numa entrevista ao Washington Post. "Nós quase tivemos pessoas a desistir na SpaceX, pelo quão difíceis os paraquedas são. Quer dizer, eles aguentaram-se, mas bolas, os paraquedas são difíceis".