Falar Baixinho

Nós e as crianças

Não podemos esperar que as crianças sejam pequenos adultos e tirar-lhes toda a energia, a irreverência e a audácia...

Nunca me hei de esquecer de uma situação embaraçosa que se passou num restaurante na altura em que um dos meus filhos estava a tirar a fralda. Não vou aqui especificar, mas acredito que surjam na cabeça de muitos pais várias histórias igualmente memoráveis.

A verdade é que quando olhamos para alguém a passear calmamente com os filhos estamos longe de imaginar o que passam na vida privada. É difícil conceber que seres tão pequenos e fofos, que ocupam um bocadinho de espaço, possam por vezes virar furacões, ter uma tendência tão grande e uma imaginação tão apurada para asneira, gerar o caos à sua volta ou deixar os pais à beira de um ataque de nervos.

Achamos sempre que só se passa connosco, que os filhos dos outros são todos bem comportados. Mas vistos de fora talvez os nossos também não causem assim tão má impressão. Até são bem educados, podem estar calmos naquela altura porque não estão à vontade e por momentos chegam a passar por anjinhos. Todos temos o direito de deixar essa impressão nos outros uma vez ou outra. Já em casa é que não há espaço para dúvidas e quem não coabita com crianças está longe de imaginar o que é viver com elas.

 

Sentimos que qualquer coisa começa a mudar quando os bebés nascem e ao trocar as fraldas somos atingidos por jatos de várias espécies que nos obrigam a trocar de roupa. Este é só o começo e a fase de treino para a saída da nossa zona de conforto.

Dos castelos com as almofadas do sofá, a verdadeiros tsunamis que acontecem quando estamos ao telefone ou a fazer o jantar, as crianças são verdadeiras forças da natureza que dificilmente conseguimos controlar.

Há quem defenda que com uma educação mais dura elas entendem o seu lugar e portam-se como deve ser. É possível que se portem melhor, mas não sei se o lugar ideal para uma criança é aquele que é mais confortável para o adulto. Sempre ordeiro, cegamente obediente, que não pisa o risco nem comete um único erro. Não há dúvida de que custa acompanhar todos os disparates e que às vezes é mesmo difícil conviver com a vontade de descoberta, de aventura. Não é fácil ficar com o coração nas mãos quando os vemos quase a cair ao saltos em cima de um colchão ou de um sofá, ou ficar a vigiar os mais velhos no mar sempre com medo de um imprevisto. Mas não será também esse o papel dos pais? Dentro do que consideramos ser seguro, deixá-los ir, aventurarem-se, pisarem o risco algumas vezes, fecharmos os olhos a um ou outro disparate? Deixá-los viver aquilo por que nunca mais terão oportunidade de passar?

 

Na história da nossa família ficará um leite com chocolate de alguns litros que escorreu por baixo da porta da cozinha e desceu vários andares e mais recentemente uma lata de tinta entornada que fez as delícias dos mais novos.

Não podemos esperar que eles sejam pequenos adultos e tirar-lhes toda a energia, a irreverência e a audácia. Já nós, só ganhávamos com um pouco mais de todos esses ingredientes que por vezes nos vão sendo roubados pelo tempo.