Cultura

Coimbra. Capital da fotografia

Uma exposição no Centro de Artes Visuais, em Coimbra, celebra os 40 anos dos Encontros de Fotografia, que ao longo de 22 edições levaram à cidade dos estudantes alguns dos maiores nomes desta disciplina.

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Durante as décadas de 80 e 90 do século passado, a cidade de Coimbra, que até à data não tinha qualquer tradição especial nessa área, funcionou como um verdadeiro íman para amantes da fotografia e da arte contemporânea. ‘Peregrinos’ de Lisboa, do Porto e até do país vizinho – a PhotoEspaña, atualmente o maior festival ibérico dedicado à fotografia, só apareceria passados muitos anos, em 1998 – concorriam para a cidade dos estudantes, para verem as exposições organizadas no âmbito dos Encontros de Fotografia.

Por ali passaram nomes fundamentais desta disciplina, desde clássicos indiscutíveis, como August Sander e Jacques Henri Lartigue, a monstros contemporâneos como Manuel Alvarez Bravo, Araki ou Robert Frank, a quem em 2015 o New York Times chamou "o mais eminente fotógrafo vivo". Os convites eram maioritariamente feitos por carta ou por telefone.

"Durante um ano andei a falar com o Frank pelo telefone", recordaria mais tarde Albano Silva Pereira, o mentor dos Encontros de Fotografia. "E um dia ele escreve-me uma carta em que diz isto: ‘Não sei porque é que vou fazer esta exposição, mas tu soas-me bem. Vou-te mandar quarenta e tal fotografias pelo correio’. Passados uns 15, 20 dias, o correio entrega-me uma caixa 50x60 da Kodak com 45 provas vintage dele. Sem seguro nem nada". Hoje, uma só dessas provas pode atingir centenas de milhares de dólares em leilão. A exposição, The Lines of My Hand, realizou-se em 1988 e Albano e Frank selaram uma amizade que durou até à morte do americano de origem suíça, em setembro do ano passado.

 

Âncoras para os fotógrafos portugueses 

Mas nem só de grandes nomes internacionais se fizeram estes Encontros. Paralelamente, expunham-se também as obras de portugueses, fossem fotógrafos do século XIX, consagrados ou emergentes. "Havia uma diversidade criteriosa em relação ao espectro do registo fotográfico", notaria o organizador da iniciativa. "A primeira exposição do Paulo Nozolino, a primeira do Daniel Blaufuks, fui eu que produzi. Primeiro, queríamos divulgar, tanto fotografia internacional como fotografia portuguesa; depois criar escola". A ideia era que "os fotógrafos portugueses tivessem âncoras", referências nas quais escorar o seu próprio trabalho.

A primeira edição dos Encontros de Fotografia realizou-se em 1980. Além das exposições, contou com colóquios e projeção de filmes. O caminho estava aberto e haveria de ser percorrido ao longo de mais de duas décadas. Cada edição constituía uma oportunidade para visitar exposições de artistas que em condições normais só podiam ser vistos em grandes galerias das principais cidades europeias ou americanas. Além disso, os Encontros apostavam numa política de abertura ao público de espaços normalmente inacessíveis. Como a emblemática Casa das Caldeiras, ícone do património industrial conimbricense, mais tarde reconvertida em espaço cultural. "Toda a gente queria que o edifício fosse uma garagem ou que o destruíssem. Felizmente o reitor confiou em mim e cedeu o espaço", recordaria Albano.
A par dos convites individuais, à medida que o prestígio dos Encontros se ia cimentando, estabeleceram-se laços e parcerias com algumas das mais importantes instituições europeias dedicadas à fotografia, o que levou o projeto para outro patamar.

 

A imagem e os seus fantasmas

O processo culminaria em 2003 com a ‘sedentarização’ dos Encontros num espaço físico e permanente, o Centro de Artes Visuais (CAV), no Pátio da Inquisição – sempre sob a batuta de Albano Silva Pereira. O antigo edifício do tribunal do Santo Ofício, mais tarde Casa dos Pobres, foi primorosamente recuperado e transformado não só para expor fotografia e arte contemporânea, mas também para promover a reflexão acerca da imagem e acolher o património acumulado ao longo de duas décadas.

É justamente nessa casa que, 40 anos volvidos sobre a edição inaugural, a história dos Encontros é revisitada e celebrada através de uma exposição coletiva, a segunda do ciclo Museu das Obsessões, que se prolonga até 2021. Spectrum. Colecção Centro de Artes Visuais / Encontros de Fotografia (patente até 10 de setembro) coloca em diálogo "obras de autores nacionais e internacionais, em muitos casos desenvolvidas no âmbito de projetos de investigação específicos que resultaram de convites e encomendas" feitos pelos Encontros. Ana Anacleto, a curadora – a quem interessam "as particularidades, as idiossincrasias e as mitologias individuais" – sublinha que o título da mostra remete para "a condição fantasmática de revelação e de estranheza" inerente à imagem.

Já no Project Room encontra-se uma exposição individual, Cápsula, de Pedro Henriques (n. 1985, no Porto) baseado em Lisboa e vencedor em 2014 do Prémio Novo Banco Revelação.

 

‘Era o meu pai que assinava as livranças’

Apesar do seu caráter ambicioso e cosmopolita, em particular para uma cidade como Coimbra, os Encontros funcionaram inicialmente movidos a boa vontade, expedientes e também alguma teimosia. "Até 96, era o meu pai que assinava as livranças, sem saber o valor dos empréstimos, no Banco Pinto e Sotto Mayor", revelaria anos mais tarde Albano Silva Pereira. "Entre janeiro e setembro, outubro, novembro [mês em que se realizavam], os Encontros eram financiados através de empréstimos bancários, e era o meu pai que os avalizava. Felizmente que os paguei todos, se não o meu pai teria cortado. A seguir à morte dele fui eu, que já tinha lastro, já tinha uma dignidade e uma honra, que pedia financiamento junto dos bancos", complementa o atual diretor do CAV. "Essa é a história dos encontros da Fotografia. Ninguém arriscava".

 

Discípulo dileto de Oliveira

A ligação de Albano ao universo da produção de imagens remonta ao início da década de 1970, quando trabalhou com António-Pedro Vasconcelos em Perdido por Cem. Depois, quando fez o serviço militar, calhou-lhe em sorte a especialidade de fotografia e cinema nos Serviços Cartográficos do Exército, em Moçambique. Durante alguns meses teve a incumbência de fotografar em zonas de guerra. "Eram imagens de feridos. Quando vemos a violência não sabemos o que havemos de fotografar. É preciso ter fígados, uma disciplina e um saber que eu não tinha". Mas foi também aí que descobriu a beleza da Ilha de Moçambique, que lhe serviria depois de matriz e de ideal a perseguir ao longo de toda a carreira.

De regresso a Portugal, trabalhou ainda como assistente de Manoel de Oliveira, com quem aprendeu "o que é a grande criatividade e disciplina". "Eu era o discípulo dileto dele". Mas em 1983 cortou com o cinema.

Além de motor e mentor dos Encontros, de fundador e diretor do CAV nos bons e nos maus momentos, Albano manteve sempre uma carreira paralela como curador e fotógrafo, que foi alimentando com as suas viagens por África e pela América. Desse trabalho resultaram, por exemplo, as exposições Atlas (1972-2012), em que reuniu 40 anos de fotografia, ou Uma Faca na Areia (2013), com curadoria do seu amigo Julião Sarmento, e Life Goes On (2015), onde prestou um tributo a outro amigo, Robert Frank, ambas na galeria Appleton Square, em Lisboa.

Personagem carismática, colecionador e excelente contador de histórias, Anabela Mota Ribeiro disse dele em 2004: "É razoavelmente louco e tem um tom desconcertante". Albano não o desmente. "Sou louco? Quando se é sonhador tem de se ter uma componente de loucura. Agora, se essa loucura quer dizer irresponsabilidade ou ter os olhos fechados, não".