Opiniao

Onde moram os afetos numa educação em pandemia?

O aumento das desigualdades no acesso a uma educação de qualidade e o constrangimento significativo de outros direitos fundamentais das crianças, como o direito a brincar, têm sido amplamente referidos como consequências do encerramento das escolas nas diferentes geografias. 

por Ana Paulino

O anúncio de uma eminente pandemia dificilmente nos deixaria adivinhar tudo o que estaria por vir em termos sociais, económicos, educativos e de saúde física e mental em consequência das medidas de confinamento e distanciamento social impostas em quase todo o mundo. Teletrabalho, ensino a distância, refeições virtuais com família e amigos e uma panóplia de recursos digitais passaram a estar na ordem do dia como garantes de uma resposta mais resiliente às circunstâncias do momento. Aquela que cada um de nós foi chamado a desenhar e a experimentar para si e para os seus, sem grandes roteiros orientadores. 

A verdade é que também os pais, os professores, as crianças e os jovens estiveram na linha da frente na resposta a esta pandemia, assumindo esse papel ativo na construção dos (novos) espaços de aprendizagem, de lazer e de relação. E fizeram-no, com resiliência, nos limites das suas casas e de um mundo digital que encurta distâncias, mas não alcança, ainda assim, a essência do afeto tão importante ao bem-estar psicológico e a um salutar desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Sabemos, também, que se estas soluções foram servindo como um penso rápido para muitos, não chegaram a todos e muito menos serão sustentáveis a longo prazo. 

 

O aumento das desigualdades no acesso a uma educação de qualidade e o constrangimento significativo de outros direitos fundamentais das crianças, como o direito a brincar, têm sido amplamente referidos como consequências do encerramento das escolas nas diferentes geografias. E não serão poucas as histórias que todos conhecemos de crianças e jovens que, em período de confinamento, experimentaram episódios agudos de ansiedade e frustração. Ou daqueles que com dificuldade e pouca motivação desempenharam o seu papel de estudantes a distância, acusando, ainda que muitas vezes em surdina, a falta das brincadeiras, das conversas e dos amigos na vivência de dias mais felizes e plenos. Lembrar-nos-emos, decerto, das famílias que respiraram de alívio porque o ano letivo acabou e finalmente puderam adormecer-se enquanto guardiões do estudo e despertar como companheiros de conversas, brincadeiras e boas experiências de partilha e encontro.

 

Quando, em jeito de balanço, se pensam as aprendizagens que os estudantes foram capazes de fazer neste período e em como consolidá-las no próximo ano letivo, não devemos esquecer-nos da dimensão que os afetos ocupam nessa complexa equação do aprender e do crescer. Como se preservam relações e interações significativas num ensino a distância? Não apenas as parcerias de aprendizagem entre professores/as e estudantes, mas as amizades, as cumplicidades do brincar, a colaboração entre pares nas tarefas de aprendizagem. Porque não podemos certamente esperar que as aquisições mais formais aconteçam sem que estas outras estejam de algum modo acauteladas. E não se trata aqui de uma necessidade de melhores recursos digitais para suportar o processo, mas daquela que é a mestria de um/a professor/a: a pedagogia. Dimensão que urge trazer para o centro do debate para que o ensino a distância seja mais do que uma panóplia de ferramentas que permite o acesso ao saber quando as escolas estão fechadas, mas sim o “espaço” seguro em que os estudantes podem continuar a ser, a estar, a partilhar, a crescer e a aprender. Que o nosso olhar para o futuro da Educação não o esqueça ou negligencie.

 

Psicóloga da Educação
Especialista de Pedagogia da jp.ik