Opiniao

Afinal não era Juan Carlos

Se por um lado, depois da notícia da saída de Juan Carlos, eram expectáveis as reações como as de Quim Torra (que pediu a abdicação do Rei) ou de Gabriel Rufián, do partido Esquerra Republicana de Catalunya (que afirmou que o melhor era que se dissolvesse a instituição e se devolvesse o "dinheiro roubado"), dos partidos que apoiam o Governo esperava-se o mínimo de lealdade institucional. 

por Rui Castello-Branco Ribeiro

Refere Marco António, em Julius Caesar, de Shakespeare, que "o mal que os homens fazem sobrevive a eles" e que "o bem é geralmente sepultado com seus ossos". Espanha vive neste momento – e não vai parar tão rapidamente – um dos momentos mais críticos da sua vida político-institucional: o aproveitamento por parte dos partidos antimonárquicos das suspeitas relativas a Juan Carlos, de modo a colocar em causa o atual regime, esquecendo-se do legado democrático que o Rei emérito deixa.

Desde que saíram as notícias relativamente aos alegados milhões recebidos pelo mais velho dos Bourbons, que a pressão e os ataques ao pai de Filipe VI e ao próprio Rei têm sido uma constante. A título de exemplo, refiro dois casos recentes, ocorridos em julho: dois dias antes da visita dos Reis de Espanha ao mosteiro de Poblet, em Tarragona, na Catalunha, o vice-presidente da Generalitat qualificou os Bourbons como "uma organização criminosa", concluindo que "a monarquia só pode ser corrupta por definição"; e na Galiza, por ocasião da festa de Santiago de Compostela, que contou com a presença dos Reis, a porta-voz do Bloque Nacionalista Galego não teve a mínima reticência ao afirmar que "não há incenso nem botafumeiro que tape a podridão da Casa Real" e que não iriam parar "até que se julguem os Bourbons por ladrões e por corruptos".

 

Mas não se pense que tal é exclusivo dos partidos nacionalistas ou republicanos que não estão no Governo porque isso qualquer pessoa que acompanhe en passant a política espanhola sabe. Mesmo dentro do Governo espanhol há partidos que dão passos no sentido de derrubar a monarquia. E desengane-se quem pensa que a saída de Juan Carlos do palácio da Zarzuela amenizará essa crispação política. Pelo contrário, ao aperceberem-se que desaparecia o manancial que lhes permitia criar um desgaste diário na monarquia, não tiveram qualquer pejo em passar a fazê-lo diretamente, deixando a nu que Juan Carlos não passava de um instrumento para os seus fins: acabar com o regime monárquico.

Se por um lado, depois da notícia da saída de Juan Carlos, eram expectáveis as reações como as de Quim Torra (que pediu a abdicação do Rei) ou de Gabriel Rufián, do partido Esquerra Republicana de Catalunya (que afirmou que o melhor era que se dissolvesse a instituição e se devolvesse o "dinheiro roubado"), dos partidos que apoiam o Governo esperava-se o mínimo de lealdade institucional. Apesar de Pedro Sánchez ter defendido o atual Rei, na conferência de imprensa que deu no passado dia 4, um dirigente do seu partido (o PSOE) considerou a saída do Rei emérito "insuficiente". Tão ou mais grave do que as declarações oriundas do seio do seu partido foi o facto de Sánchez – naquilo que cada vez mais parece ser um jogo em dois campos – ter recusado condenar as palavras e atitudes do seu parceiro de governo, o Podemos.

 

O partido de Pablo Iglesias foi contundente no seu ataque e não se preocupou nem em escondê-lo, nem tão pouco com a posição que desempenha no Governo de Espanha. A formação roxa depressa se apressou a qualificar a saída de Juan Carlos como uma fuga indigna, apesar de bem saber que este manifestou estar à disposição da justiça espanhola. E não se ficou por aí. Irene Montero, que também é ministra, prontamente tuítou que a saída de Juan Carlos punha a monarquia numa situação muito delicada (apesar de também ser do conhecimento geral a barreira higiénica que Filipe criou à volta do seu pai, retirando-lhe a subvenção vinda do orçamento da Casa Real e renunciando, em seu nome e no da sua filha mais velha, a qualquer herança). Pablo Iglesias, líder do Podemos e vice-presidente do Governo, afirmou ainda que a situação abre espaço para um debate sobre a utilidade da monarquia (quando é consabido que esta é o fator de unidade nacional espanhola) e o seu grupo parlamentar recusa-se a "continuar a levar" com uma monarquia carente dos mínimos valores éticos.

 

É esta, ironicamente, a reivindicação de um partido que integra o Governo de Espanha: que uma república, como defendem, seria uma fonte de ética, sem qualquer vício ou corrupção, ao contrário do atual regime, monárquico, parlamentar e democrático, o que não deixa de ser curioso para uma formação suspeita de receber milhões vindos da Venezuela, cujo líder terá recebido financiamento do Irão, com assessores pessoais de dirigentes pagos sem contrato ou inscrição na segurança social e atualmente a braços com suspeitas sobre sacos azuis e contabilidade paralela.

 "Eu não sou monárquico, sou Juancarlista" era uma frase tantas vezes repetida em Espanha e que agora deixa de ter sentido. Não se apoia um regime pelas pessoas, mas pela convicção de que é o melhor para o país. Não é preciso ser monárquico para reconhecer que a herança política de Juan Carlos é inestimável – conseguiu no período pós-franquista o que dificilmente outra pessoa conseguiria: a transição pacífica para uma democracia, a união de Espanha em torno de uma monarquia parlamentar assente numa constituição votada em referendo – uma constituição, diga-se, que ao não ser de fações (como até então todas as constituições espanholas, em maior ou menor escala, haviam sido), mas de concórdia –, desempenhou um papel fundamental para a que tentativa de golpe de 23 de fevereiro de 1981 não passasse de isso mesmo e liderou Espanha no caminho do Estado de Direito, pronta a entrar na União Europeia.

É esse legado e a união de Espanha que Filipe VI procurará manter durante o seu reinado.