Opiniao

Calores de verão (2)

O que se passa com Rio? Um Homem que se notabilizou pela obra no Porto, e, de repente, começa a jorrar ideias contra os princípios que sempre defendeu como o de se opor a um PSD liberal?

Em 2013, Rui Rio, na altura Presidente da Câmara Municipal do Porto, escreveu uma carta aberta ao Governo de Passos Coelho (também subscrita por 50 ilustres personalidades nortenhas) tecendo diversas críticas contundentes sobre o tratamento dado à sua cidade – relembrando os compromissos em falta com a sociedade Porto Vivo, nomeadamente a necessidade de cumprimento com investimento na requalificação urbana, sem esquecer as dívidas à sociedade (2,4 milhões de euros).

Relembro este episódio exatamente porque sempre vimos Rui Rio como um defensor de causas e muitos, como eu, temos dificuldade de compreender aquilo que consideramos ser a enorme escassez de críticas ao Governo. Em tempos de covid, mesmo anunciando logo em março que as críticas que faria seriam cooperantes dada a situação em que vive o país, têm existido inúmeros temas a serem tratados de forma mais que deficiente pelo Governo nos diversos setores e não vemos Rio a liderar a oposição. 

Posso estar a ser injusto, mas para agravar esta imagem, estes últimos tempos não lhe têm corrido nada bem. Depois de ter manifestado por diversas vezes disponibilidade para alianças com o PS como se constatou com a abolição das idas quinzenais do primeiro-ministro ao Parlamento – Rio, certamente um homem solitário e convicto de ideias, lembrou-se de alvitrar uma aliança com o Chega, desde que este se tornasse «mais moderado» e se afastasse da «demagogia e populismo».

Às vezes dou comigo a perguntar – que se passa com Rio? Um Homem que se notabilizou pela obra da Câmara Municipal do Porto, chegou à liderança do PSD e, de repente, começa a jorrar ideias que vão esbarrar contra os princípios que sempre defendeu como o de se opor a um PSD liberal? Será que quando vem para Sul, a travessia do Douro, tirando-o da sua zona de conforto, lhe tolda o raciocínio? Ou será que vê tão à frente que um comum mortal não consegue entender?

Sinceramente, com posições tão versáteis, juntando-se à esquerda ou à direita, consoante o momento, não surpreende a contestação interna crescente que sofre e em surdina que o mina ainda mais. Tendo com mérito chegado à presidência do PSD, acho que nunca convenceu os seus militantes como sendo ‘o líder’. 

Com tiradas destas, o PS rejubila, argumentando que o PSD não é confiável, defendendo que os seus aliados naturais são o PCP e o Bloco. O impressionante desta ideia é que o próprio PS atraiçoa os seus valores democráticos e europeus ao escolher estes parceiros – mas com isso Costa vive bem, até porque internamente poucos o ousam criticar. 

Costa sabe bem que foi o Bloco que lhe retirou a maioria absoluta nas últimas eleições, como há dias relembrou no Parlamento. Mas insiste neste casamento, ignorando que a estratégia bloquista consiste sempre em colar o PS à direita, quando contraria as suas ideias mestras. Neste momento, sabendo que Costa quer ‘papel assinado’ já vai novamente marcando terreno, apresentando desde já reivindicações. 
Por exemplo, quando neste ambiente todos reconhecem a importância do investimento estrangeiro e da iniciativa privada para recuperar a economia da letargia que hoje vivemos, o Bloco capricha a fazer exigências, nomeadamente sobre o endurecimento das leis laborais.

Um dos segredos da recuperação da economia e da taxa de desemprego depois da troika foi comprovadamente a flexibilização das leis laborais. Hoje, aflitos como estamos, desesperados por investimento para retomar a economia, querem inverter esta legislação, em nome dos trabalhadores? A sério?

Para terminar, umas notas sobre o Turismo, setor muito fustigado pela dura realidade atual. Na hotelaria, as taxas de ocupação têm sido baixíssimas. Na restauração, a ARESP refere números aterradores de potencial encerramento de restaurantes a rondar os 43%, a curto prazo. Com o futuro tão incerto, de certeza que a Ministra do Trabalho quer mesmo manter a alteração da legislação do layoff a partir de agosto? Porque, realmente, existe o risco de em vez de se pagar de uma maneira, se começar a substituir este layoff simplificado pelo subsídio de desemprego que fica bem mais caro ao erário público.

P.S. – Há largos anos, fiquei siderado com a preocupação dos automobilistas portugueses em modernizarem as chapas de matrícula quando da alteração das antigas (eram pretas com letras e algarismos brancos em relevo) para as atuais. Quem as vendeu fez rios de dinheiro! Agora, bastou uma pequena alteração na exigência das mesmas para os portugueses pressurosamente gastarem uns euros a mudar. Mas é com isto que os ‘tugas’ se preocupam, a fingir que têm um carro novo?