Cultura

Kim Philby. Um agente secreto nunca confessa

Foi condecorado por Franco, mas também pelo Governo britânico e pelo regime soviético. Movimentava-se habilmente nos círculos da alta sociedade inglesa, mas secretamente odiava os seus membros. Estrela dos serviços secretos britânicos, durante décadas espiou ao serviço dos soviéticos. Viria a morrer em Moscovo, sozinho e amargurado.

Kim Philby não se chamava Kim Philby. Nascido em Ambala, uma pequena cidade do Norte da Índia, a 1 de janeiro de 1912, o seu nome de batismo era Harry Adrien Russell Philby. O seu pai, um famoso especialista em assuntos árabes que trabalhava na administração colonial, tratava-o por Kim, por causa do romance de Rudyard Kipling sobre um órfão de pai irlandês que cresce na Índia britânica e se torna espião. Um nome que se revelaria premonitório.

O rapaz foi estudar para Inglaterra e licenciou-se em Cambridge na década de 30. Graças ao seu charme e brilhantismo, rapidamente penetrou nos círculos da alta sociedade e começou a trabalhar como jornalista. Foi correspondente do The Times na Guerra Civil de Espanha, onde só por milagre escapou com vida a uma explosão que vitimou as três outras pessoas que estavam no mesmo carro que ele. A proeza valeu-lhe ser condecorado por Franco.
Enquanto decorria a II Guerra Mundial entrou com naturalidade para o MI6, os serviços de espionagem britânicos. E as suas qualidades proporcionaram-lhe uma progressão meteórica.

Educado e atencioso, Philby podia ser um convidado encantador, um conversador cativante, um sedutor. Tinha olhos azuis, vestia-se com uma elegância própria e fumava cachimbo. "As pessoas não se limitavam a gostar dele, a admirá-lo e a concordar com ele: veneravam-no", diria um dos seus mais próximos camaradas, Nick Elliott. Mas, pelas costas, podia fazer referências ácidas àqueles que tanto apreciavam a sua companhia, fosse a propósito de características físicas – "feio e desagradável à vista" - fosse pelos atributos intelectuais – "pateta".

Philby trabalhava prodigiosamente e bebia ainda mais prodigiosamente. Por vezes gostava de provocar ou mesmo de escandalizar.

"Nunca conheci um tipo que se embebedasse como ele. Eu fazia-lhe perguntas, ele passava o tempo a beber uísque, e eu tinha de o meter, literalmente, num táxi para ele voltar para casa", recordaria o camarada Nick Elliott ao escritor (e ex-espião) John Le Carré. "Uma vez, levei-o a um jantar. Ele encantou toda a gente e de repente começa a falar sobre as mamas da anfitriã. Disse que ela tinha os seios mais bonitos do Serviço. Indecente. Quero dizer, num jantar não se começa a falar sobre as mamas da dona da casa. Mas ele era assim. Gostava de chocar". O testemunho aparece no posfácio de Le Carré ao livro Um Espião Entre Amigos – Kim Philby e a Grande Traição, de Ben de Macintyre, recentemente editado em Portugal pela D. Quixote.

 

Um prémio formidável

"Em setembro de 1944, tendo sido convocado ao gabinete de C [letra de código por que é conhecido o chefe supremo do MI6], Philby foi recebido com ‘grande cordialidade’ e informado de que seria o diretor da nova secção soviética", descreve Macintyre. Por esse e outros serviços prestados durante a guerra, Philby foi indicado para uma das mais altas condecorações, a Ordem do Império Britânico. E em finais de maio de 1946 era nomeado chefe da estação do MI6 em Istambul, na Turquia. Não ficou muito tempo, porque a sua carreira continuava a ascender vertiginosamente. No início de outubro de 1949 estava a viajar a bordo do Caronia, "o transatlântico mais luxuoso da época" – onde tinha à sua espera no camarote o presente de um amigo "escandalosamente rico", uma caixa de garrafas de champanhe. À chegada a Nova Iorque, foi recebido com todas as mordomias. Não era caso para menos: Philby ia assumir em Washington a responsabilidade da articulação entre o MI6 e os serviços secretos americanos, "intermediando as comunicações secretas entre o primeiro-ministro britânico e o Presidente americano", explica Macintyre. E até tinha sido posto ao corrente do "segredo mais bem guardado da Guerra Fria". Era um prémio formidável para um homem que ainda não tinha atingido os 40 anos.

"Philby adorou Washington e Washington adorou-o", escreve Macintyre. "As portas abriram-se de par em par". Mesmo as dos locais mais reservados, como as sedes do FBI e da CIA ou o Pentágono.

 

Hipnotizado pelo comunismo

O que ninguém desconfiava era que Philby trabalhava há muito para o inimigo. Moscovo exultava com a sua promoção, pois quanto mais alto o seu agente subia, mais acesso tinha a informação preciosa. James Angleton, o chefe do gabinete de operações especiais da CIA, tornou-se um dos seus amigos mais próximos. Pelo menos uma vez por semana encontravam-se no Harvey’s, o restaurante mais exclusivo da capital americana, para um almoço longo e animado onde comiam lagosta e despejavam garrafas de vários tipos de bebidas alcoólicas.

Mas o horizonte começou a anuviar-se quando dois espiões do MI6, Donald Maclean e o histriónico Guy Burgess, na iminência de serem desmascarados como agentes duplos ao serviço dos soviéticos, protagonizaram uma escandalosa deserção para a URSS. Philby era consabidamente próximo de Burgess e todos os três tinham estudado na mesma época em Cambridge. Muitos começaram a interrogaram-se se Philby não seria o ‘terceiro homem’ que os alertara e ajudara a escapar para território seguro.

De facto, fora precisamente em Cambridge que começara a sua devoção ao comunismo. "Com as 14 libras que recebeu pela licenciatura comprou a coletânea das obras de Karl Marx", refere Macintyre. Antes de deixar a universidade para sempre, "procurou o seu orientador, o economista marxista Maurice Dobb, e perguntou-lhe como poderia ‘dedicar a vida à causa comunista’".

No ano seguinte, 1944, teria um encontro decisivo com um recrutador e controlador, Oscar Deutsch, que se apresentou como Otto, e que Macintyre descreve como o "principal arquiteto do que ficaria conhecido como o círculo de Cambridge". Philby pareceu ficar como que enfeitiçado pelos olhos de Otto e decorou as suas instruções "como se fossem poesia". Daí em diante, passou a manifestar-lhe uma obediência cega digna de uma pessoa hipnotizada.
Depois do escândalo da deserção de Maclean e Burgess, o passado de Philby foi vasculhado e os americanos acumularam indícios que o comprometiam. Acabaram por exigir a sua expulsão do alto cargo que ocupava, recambiando-o para Londres. Também aí o antigo ‘menino bonito’ do MI6 caiu em desgraça. Habituado a viver em grande estilo, a frequentar os locais mais luxuosos e exclusivos sem olhar a despesas, viu-se obrigado a encontrar um emprego de escritório mal remunerado, para o qual se deslocava na rede de pública de transportes. Como se encontrava sob vigilância apertada, nem sequer podia recorrer aos seus protetores soviéticos. Mesmo assim, um dia ela chegou, sob a forma de um envelope com cinco mil libras lá dentro, o bastante para viver mais desafogadamente e dar-lhe ânimo para tentar relançar a sua carreira.

Em outubro de 1955 foi considerado inocente por falta de provas. No mês seguinte, na sequência de uma acusação feita por um deputado conservador no Parlamento, contra-atacou. "As escadas estavam apinhadas de jornalistas da imprensa mundial", diz-nos Macintyre em Um Espião Entre Amigos. "O que se seguiu foi uma proeza admirável, uma exibição de descarada desonestidade política que poucos políticos ou advogados poderiam igualar. [...] Philby olhou o mundo nos olhos com uma expressão firme e mentiu com quantos dentes tinha. A filmagem da famosa conferência de imprensa ainda é usada como ferramenta de treino pelo MI6, uma masterclass em intrujice". Numa palavra: negou tudo. Aliás, era esse o conselho que dava aos instruendos. Num vídeo de 1981 descoberto há quatro anos, dizia numa palestra para elementos da Stasi, a polícia política da Alemanha de Leste: "O meu único conselho para vocês é que digam aos vossos agentes que eles nunca podem confessar".

 

Uma causa moribunda

Com a ajuda de Nick Elliott, que assumira um cargo de chefia no MI6 em Londres, Philby regressou ao ativo. No verão de 56 instalou-se em Beirute, trabalhando como jornalista e como agente freelance. Foi no Hotel Normandie, onde começava os seus dias com vodca e jornais, que retomou também o contacto com os soviéticos. Tinha recuperado a sua antiga vida como agente duplo. Até que uma nova denúncia veio por fim desmascará-lo. Ohomem escolhido para o confrontar foi justamente o seu velho amigo Nick Elliott, que voou de imediato para a capital libanesa. A 11 de janeiro de 1963, ao chegar a casa, Philby encontrou Elliott sentado no seu sofá. Um dos pontos altos do livro de Macintyre é a reconstituição do diálogo entre os dois veteranos: uma espécie de jogo de xadrez de alto nível em que Elliott segue uma estratégia cuidadosamente preparada para declarar xeque-mate ao traidor.

Kim Philby nunca chegou a ser preso. Acabaria os seus dias em Moscovo, ainda assim mantendo os hábitos de um cavalheiro inglês. Na Grã-Bretanha, era violentamente vilipendiado. "Ele foi um imperdoável traidor deste país, responsável, entre outras tantas coisas, pelo assassinato de muitos homens corajosos pelos seus associados soviéticos. A única coisa que posso dizer é que, conhecendo-o por metade (a metade falsa, é claro), ele era um amigo muitíssimo agradável", declarou Glen Balfour-Paul, a cujo jantar Philby faltou na noite em que desapareceu de Beirute num cargueiro com destino a Odessa.

Quanto ao traidor, viria a dizer: "Não gosto de enganar as pessoas, sobretudo os amigos, e ao contrário do que os outros pensam, sinto-me muito mal por isso". Philby já não viveria para assistir ao fim da União Soviética em 1990, mas, nos anos que passou em Moscovo, decerto percebeu que a causa a que se tinha dedicado e mantido fiel toda a vida estava moribunda. Afinal de contas, talvez a maior vítima daquele grande engano tenha sido ele próprio.